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Ruídos e distorções: porque quando tomamos decisões, nem todos os erros são iguais

Mind the Economy - série de artigos de Vittorio Pelligra, publicados no jornal "Il Sole 24 ore"

por Vittorio Pelligra

publicado em italiano no Il Sole 24 ore em 27/06/2021

Há meses que nestas colunas, temos confraternizado com os erros. Há meses os classificamos, avaliando suas possíveis consequências, explorando suas causas e até mesmo cantando seus louvores com uma função pedagógica e amadurecimento pessoal e coletivo. Aprendemos a conhecer a diferença entre um erro de projeto e um erro de execução, um “slip” (deslize) ou um “lapse” (falta ou lapso) ou um verdadeiro e preciso "erro". Aprendemos também a conhecer os vários “bias” (vieses) ou distorções sistemáticas que não são erros verdadeiros e precisos porque, justamente por serem sistemáticos, são, de alguma forma, previsíveis.

Erros no supermercado

Quantas vezes já aconteceu de você pegar um carrinho desengonçado no supermercado, um daqueles ingovernáveis porque, devido a um defeito nas rodas, eles se desviam ora para a direita ou para a esquerda e o fazem lutar para corrigir todos os desvios a fim de manter uma linha reta. São carrinhos "errôneos", por assim dizer. Depois, porém, há também aqueles carrinhos, igualmente desengonçados, que em vez disso puxam totalmente para a direita ou para a esquerda e, em seguida, para endireitar a trajetória, você tem que empurrar sistematicamente com mais força para a esquerda ou para a direita. Estes são os carrinhos "distorcidos". O resultado é sempre o mesmo - dificuldade em manter uma linha reta, mas as razões e especialmente as contramedidas necessárias para alcançar o objetivo são diferentes.

Erros no bar

Você está no bar irlandês hoje à noite, e está assistindo a uma competição de dardos. Um dos lançadores é particularmente experiente e todos os seus dardos, um após o outro, ficam em uma pequena área ao redor do centro. O segundo jogador também parece experiente; seus dardos também se concentram em um espaço muito pequeno no tabuleiro, em torno de um ponto. Pena que esse ponto esteja muito longe do centro e mais próximo do círculo externo do alvo. Depois há o terceiro jogador. Percebe-se que ele é um principiante. Cada tiro atinge áreas diferentes do quadro: alguns, poucos, perto do centro, outros distantes, em cima, em baixo, à esquerda e à direita. Ao final do jogo é decretado o vencedor que é, é claro, o primeiro jogador. O segundo e terceiro jogadores obtiveram pontuações muito baixas, mesmo que por diferentes razões. Os lances do segundo jogador foram sistematicamente "distorcidos", enquanto os do terceiro jogador foram "barulhentos".

"Viés" e "ruído

Esta distinção entre " viés" e "ruído" está no coração do novo trabalho que o Prêmio Nobel Daniel Kahneman acaba de publicar junto com Cass Sunstein e Olivier Sibony ("Noise. A Flaw in Human Judgement". Harper Collins, 2021) e que nos ajuda a entender melhor a essência de uma nova categoria de fenômenos que continuamente correm o risco de enganar nossas decisões, levando-nos a erros com consequências, às vezes quase insignificantes, outras vezes trágicas e desestabilizadoras.

Às vezes, uma dispersão excessiva de avaliações só pode criar confusão. Pense em quantas ouvimos nos últimos meses dos virologistas mais presentes nas salas de televisão sobre o tratamento mais adequado, sobre a origem do vírus, sobre a utilidade das máscaras e de outras medidas de contenção, sobre a conveniência de fechar, reabrir, distanciar, reunir. Muito barulho de fato.

Os erros da política

As coisas se tornaram mais sérias quando este "ruído", esta dispersão de suposições e abordagens, em vez disso, começou a informar as práticas operacionais das regiões, dos municípios, das empresas sanitárias em relação ao rastreamento, aos movimentos, à triagem, às internações, às vacinações. Com frequência houve uma situação de autêntica desigualdade de tratamento. Por que em algumas regiões os estudantes finalistas receberam a vacina e em outras não? Pode ser a sorte ou a desgraça de nascer em um lugar e não em outro do território nacional, razão suficiente para ser excluído de certos serviços que, no entanto, em outros lugares os cidadãos da mesma nação têm acesso? Aqui, o "ruído" se torna particularmente perigoso quando falamos de decisões e avaliações que têm um certo componente aleatório, como neste caso, o local de nascimento. Mas vamos dar um passo atrás.

Como decidimos

As decisões, na maioria dos casos, são baseadas em avaliações, “judgements” em inglês. Há muito tempo sabemos como as nossas estratégias cognitivas, verdadeiros atalhos mentais, a heurística, podem produzir distorções em tais avaliações. O mundo lá fora é complexo, a informação superabundante e o tempo para decidir o que fazer é limitado. A heurística nos ajuda, na grande maioria dos casos, a administrar essa complexidade de forma egrégia. Eliminamos informações irrelevantes, damos pesos diferentes àquilo que nos interessa e ao que pode nos distrair, tudo para economizar o tempo e a energia que cada decisão requer. Mas estas heurísticas evoluíram para nos ajudar a realizar essas tarefas em um ambiente que hoje já não existe.

O nosso cérebro está perfeitamente adaptado para a savana de 150 mil anos atrás, e um pouco menos para a sociedade de hoje e sua incrível velocidade de mudança. Por esta razão, de vez em quando, mas de forma previsível, a heurística nos desorienta. Estes desvios são os “bias”. (enviesamentos). Com o barulho, "noise” (ruído), as coisas são diferentes. Enquanto o "enviesamento" nos empurra a todos na mesma direção, errada, o "ruído" descreve a grande variabilidade em nossas decisões e julgamentos. A combinação de " viés" e " ruído", é claro, só pode deteriorar ainda mais a qualidade das nossas escolhas.

O que afeta a decisão

É necessário, porém, distinguir os dois componentes, porque os remédios podem ser muito diferentes. Um exemplo particularmente alarmante de "ruído" é aquele com o qual Kahneman, Sunstein e Sibony abrem o seu livro: o comportamento dos juízes no tribunal. Já vimos em um “Mind the Economy” anterior, como a probabilidade de uma decisão tão importante como a concessão de liberdade condicional varia sistematicamente com a distância temporal da última refeição do juiz: após o café da manhã, o valor é alto e diminui à medida que se aproxima a hora do almoço. Após o almoço, a porcentagem sobe novamente e depois cai sistematicamente no decorrer da tarde. A qualidade das decisões é ainda mais contestada pelo fato de que muitos estudos mostram que os mesmos crimes são punidos com penas extremamente diferentes. O alvo é a sentença justa, mas os juízes frequentemente jogam seus dardos sobre o alvo muito longe do centro.

A discricionariedade do juiz é tradicionalmente considerada como um valor; ela lhe permite calibrar sentenças e penalidades levando em conta inúmeros fatores agravantes ou atenuantes que seriam impossíveis de codificar pontual e precisamente. Mas esta discricionariedade é realmente uma garantia de uma sentença justa? Nos anos 70 do século passado, o juiz Marvin Frankel levantou esta questão no sistema penal americano. Ele colocou o problema desta forma: "Uma vez que um assaltante acusado no âmbito federal pode receber uma sentença de até 25 anos, isto não pode significar que sua sentença pode ser qualquer coisa entre 0 e 25 anos". As ideias de Frankel tiveram um amplo seguimento e os estudos empíricos começaram a produzir resultados surpreendentes: descobriu-se que um traficante de heroína podia obter uma sentença que variava de 1 a 10 anos de prisão, dependendo do juiz designado para o seu caso; a sentença por um assalto a um banco podia variar de 5 a 18 anos de prisão; a extorsão de 3 a 20 anos.

Causalidade ou casualidade?

A situação já alarmante destacada por esses dados se agrava ainda mais quando se procura as causas determinantes dessas avaliações. Um estudo de milhares de sentenças de menores infratores descobriu que a severidade das sentenças impostas na segunda-feira estava correlacionada com o desempenho do time de futebol local no fim de semana. Um estudo semelhante sobre a concessão de asilo político realizado em mais de 200 mil casos constata que a probabilidade de receber uma resposta positiva ao pedido de asilo está inversamente correlacionada com a temperatura registrada naquele dia na cidade do tribunal: se estiver calor, os juízes se tornam menos acolhedores. O fato de o mesmo caso poder ser avaliado de forma tão diferente por pessoas diferentes é um caso clássico de "ruído".

Vamos pensar num diagnóstico médico e no sentido de pedir uma segunda opinião. Se as duas opiniões não coincidirem, significa que um médico está certo ou outro está errado. Mas muitas vezes não há uma resposta absolutamente correta como estar doente ou estar saudável. Muitas vezes os “judgments” (julgamentos) são avaliações a respeito dos valores de um estudante ou às qualidades de um candidato a um emprego, ou à culpa de uma das partes envolvidas em um acidente ou ao potencial de um projeto de pesquisa. Em todos esses casos, se os julgamentos forem ruidosos, pode acontecer que, com um grande componente de casualidade, bons estudantes sejam penalizados ou vice-versa, candidatos promissores a uma vaga de emprego sejam descartados ou vice-versa, vítimas inocentes de um acidente sejam responsabilizadas ou vice-versa, projetos de pesquisa inovadores não sejam financiados ou vice-versa, etc., etc.

Decisões "ruidosas”

Em todos estes casos, não só estamos diante de erros na tomada de decisões, mas também de uma verdadeira e precisa injustiça sistêmica. Tente pensar no caso de um professor cujo julgamento sobre o desempenho dos alunos é afetado pelo "ruído": ele atribui, por exemplo, a seus alunos metade do tempo uma nota generosa e a outra metade do tempo uma nota muito baixa. Não diremos, neste caso, que o critério de avaliação dá, em média, uma nota correta; preferimos dizer que o professor foi injusto 100% das vezes. Metade por defeito, a outra metade por excesso. Neste caso, os erros se somam, e não se eliminam entre si.

As decisões "ruidosas" representam fenômenos particulares cuja dinâmica tem atraído a atenção dos estudiosos apenas recentemente. Vamos abordar as suas características peculiares, as áreas de aplicação e os possíveis remédios. O fato de que o livro de Kahneman e colegas já está começando a despertar um pouco de controvérsia na comunidade científica significa, entre outras coisas, que o tema é relevante e definitivamente digno de um estudo mais aprofundado.

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