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Os pés diferentes das mulheres

Profecia é história / 10 – O equilíbrio nem sempre é virtude e as bênçãos estão também nos pormenores

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 04/08/2019

«A voz do Senhor retorce os carvalhos, despoja as árvores dos bosques. No seu santuário todos exclamam: “Glória!”»

Salmo 29

As perguntas difíceis e descabidas que os escritores bíblicos fizeram à história, continuam a gerar uma leitura capaz de fazer ressurgir aquela mesma história. Como no pormenor que resgata o triste acontecimento de um menino que morre.

O equilíbrio é, geralmente, uma virtude mas, como todas as virtudes, se absolutizado, também o equilíbrio se torna vício. Durante as crises ética e espirituais, apenas escolhas equilibradas nos podem salvar. Dietrich Bonhoeffer não foi equilibrado quando, em fevereiro de 1938, decidiu entrar no grupo conspirador antinazi do almirante Canaris. Os seus colegas teólogos, mais equilibrados, encontraram muitas razões de prudência para assistir passivos ao horror e tornaram-se cúmplices. Esse comportamento desequilibrado gerou, na prisão, talvez a teologia mais profética do século XX. E foi um outro comportamento imprudente e desequilibrado a gerar o Gólgota e o sepulcro vazio.

A Bíblia não foi escrita por um grupo de intelectuais imparciais e equilibrados. A comunidade de escribas, que narrou esta história de Israel, era parte da história que narrava, e era uma parte alinhada. Escrevia para fazer ressurgir o passado dentro dum presente ferido e exilado. Por isso, era parcial, partidária, a ponto de intervir nas fontes com ações que nós, modernos, consideramos incorretas. O mérito daqueles escribas que compuseram a grande história de Israel, do Génesis aos Livros dos Reis, foi propor uma leitura forte e, por isso, parcial da sua desventura. Quando temos de compreender e convencer-nos que a nossa história de amor acabou, podemos ler as cartas dos advogados e as sentenças do juiz, mas, para o compreender verdadeiramente, é preciso um exercício espiritual da memória, que saiba identificar poucos momentos, palavras, gestos, porque, nas histórias importantes, nem todas as palavras e dias são iguais. Se queremos compreender o que aconteceu à nossa comunidade desanimada e murcha, podemos e devemos ler as atas dos conselhos, as estatísticas e os anais oficiais; mas, para o compreender verdadeiramente, temos de aprender a ler outras atas, interpretar os sinais ténues que nos fugiram, ligar algumas palavras erradas, pronunciadas em determinados momentos, perdões que faltaram, pecados de soberba e de poder. E, uma vez identificada uma chave de leitura, experimentar agir sobre ela para mudar e ressurgir, conscientes que aquela chave é parcial, é exagerada, é desequilibrada.

As comunidades ideais constituídas à volta de uma promessa, durante e depois dos exílios, devem aprender a fazer perguntas radicais à sua história. E se o não fazem, o exílio torna-se infinito. Estas perguntas são essenciais, mesmo quando as respostas são inadequadas e insuficientes (como, por vezes, são as dos redatores dos livros históricos). Como chegámos a isto? Como fomos reduzidos a esta condição? Onde errámos? Quando e porquê a aliança se quebrou? Se a Bíblia chegou viva até nós, se de um “resto” nasceu, séculos depois, Jesus de Nazaré, isto aconteceu porque uma alma verdadeira daquele povo soube fazer a si mesmo e a Deus, perguntas difíceis e desequilibradas. Salvamo-nos sobretudo e talvez exclusivamente, se, nas cinzas, aprendemos a formular perguntas radicais, porque são estas que nos acompanham e alimentam, enquanto o tempo passa, a dor aumenta e as respostas não chegam.

O grande tema que ocupa os capítulos 12-16 do primeiro Livro dos Reis, são as razões do cisma do Reino do Norte e as vicissitudes dos primeiros reis dos dois reinos. Alguns dados históricos úteis: as descobertas da arqueologia, nas terras da Bíblia e nas áreas limítrofes, mostram uma história diferente – por vezes, muito diferente – da relatada nestes capítulos. Estes contam-nos que, depois da libertação do Egipto, pela ação de Moisés, e depois da ocupação militar da Terra Prometida, com Josué, as doze tribos da Jacob-Israel conheceram um desenvolvimento progressivo, até à instituição da monarquia de Saul, David e, por fim, Salomão, quando o reino atinge o seu máximo bem-estar e extensão geográfica de Norte a Sul. Esta “idade de ouro” termina com o cisma de Jeroboão, que desencadeia uma decadência que atingirá o seu auge com a ocupação babilónica e o exílio. A rotura da unidade nacional foi consequência da punição de YHWH pela idolatria e pela corrupção do Reino do Norte (Israel). Os dados extra-bíbicos (sobre os quais, uma leitura ótima é o texto de Mario Liverani, Para Além da Bíblia) e as descrições encontradas nalgumas estelas, dizem-nos coisas diferentes. Em primeiro lugar, é já quase certo que algumas das tribos fossem já autóctones da região palestiniana, séculos antes do tempo de Josué e da monarquia. O crescimento do Reino de Israel foi uma unificação/conquista de clãs que foram anexadas a um núcleo israelita relativamente pequeno, no início (note-se que o território das doze tribos, no seu conjunto, era do tamanho das Marche - região de Itália), que correspondia talvez só às tribos de Efraim e Benjamim – no Norte, portanto – enquanto o Sul (Judá) seria de formação mais recente. Uma figura chave no processo de alargamento do reino seria a de Omeri (século IX), o fundador da Samaria, a quem a Bíblia dedica apenas algumas linhas (1Rs 16, 22-28). Omeri foi tão importante que, durante muito tempo depois da destruição da sua dinastia, continuava a falar-se da “Casa de Omeri”, para indicar o povo de Israel.

Todavia, os dados recentes colocam em crise o relato Bíblico de um único reino, depois dividido em dois, afirmando que o reino unido de David-Salomão teria sido uma idade de oiro mítica, mas não histórica – e que talvez algumas das façanhas atribuídas, pela Bíblia, a David, fossem, na realidade, façanhas de Omeri. Além disso, toda a narração do livro de I Reis é composta na perspetiva do Reino do Sul, donde emerge uma leitura muito negativa dos reis do Norte, acusados de idolatria. Na realidade, é muito provável que os reis do Norte não fossem mais idólatras que os do Sul. Mas, como acontece frequentemente, a Bíblia conserva também alguns vestígios de outras tradições “nórdicas” (vimo-lo, a seu tempo, com a história de Saul), donde ressaltam outras razões do cisma (entre outras, o conflito natural dos países que se desenvolvem verticalmente).

É dentro desta explicação parcial, assente na infidelidade do Reino do Norte, que é lido também o relato, tremendo e belíssimo, da visita da mulher do rei ao profeta Aías: «Por essa altura, Abias, filho de Jeroboão, caiu doente. Jeroboão disse pois à sua esposa: “Levanta-te, por favor, disfarça-te, para que não reconheçam que és a mulher de Jeroboão, e vai a Silo; lá se encontra Aías, o profeta… Leva contigo dez pães, bolos e um pote de mel e vai ao seu encontro. Ele te contará o que está para acontecer ao rapaz”. A esposa de Jeroboão assim fez. Levantou-se e foi a Silo, à casa de Aías. Ele já não conseguia ver; por causa da velhice» (1Rs 14, 1-4): Jeroboão conhece o profeta e sabe que ele é conhecedor da sua idolatria e, por isso, faz disfarçar a sua mulher. Mas o profeta reconheceu-a pelo modo como caminhava: «Aías, ao ouvir o ruído dos seus pés, quando ela chegava à sua porta, disse-lhe: “Entra, ó mulher de Jeroboão; porque é que te queres fazer passar por outra? Eu fui enviado para te dar uma dura noticia”» (14, 6). A notícia é um tremendo oráculo de maldição: «Vou lançar uma desgraça sobre a casa de Jeroboão… Quando alguém de Jeroboão morrer na cidade, hão de comê-lo os cães; e quando alguém morrer no campo, comê-lo-ão as aves do céu» (14, 10-11). Depois, acrescenta a frase mais tremenda de todas: «E tu levanta-te, vai para tua casa; mal teus pés entrem na cidade, morrerá o menino» (14, 12). A mulher partiu e, «quando chegou ao limiar da porta de casa, o menino morreu» (14, 17). O menino Abias morreu. De vez em quando, a Bíblia usa a morte das crianças para dar uma mensagem aos pais e a nós. É a sua linguagem. Mas nós não podemos avançar sem estar, um pouco, debaixo das cruzes destes inocentes, na Bíblia e na vida.

Uma mulher disfarçada, por ordem do marido, para tapar a sua vergonha. Aqui, não é o rei a disfarçar-se, como aconteceu com Saul, que se dirigiu à nigromante de Endor (1Sam 28), num outro episódio maravilhoso. O rei fica em casa e pede à sua mulher para se disfarçar e envia-a. O texto não nos fala de culpas desta mulher de Jeroboão, mas é ela que executa a parte mais difícil nesta tragédia. Disfarça-se para esconder a vergonha do marido – quantas vezes o vemos, nas nossas famílias ou nas nossas empresas, quando é uma mulher que “se disfarça” por uma vergonha não sua e vai falar com advogados, banqueiros, juízes, para esperar obter uma boa notícia.

Esta mulher, esta rainha, não diz uma única palavra neste relato escrito por homens para homens, onde se comunica a morte de um filho com insuficiente pietas – como, e com que palavras, teria dado esta notícia uma profetiza? Fazendo à Bíblia estas perguntas, crescerá connosco. Uma mãe mascarada, enviada a um profeta, usada como mensageiro, a quem não é dado o direito de palavra nem de exprimir as suas emoções. Ao texto, não interessa como aquela mulher reage à condenação à morte do seu filho, não nos diz se implorou ao profeta para pedir ao seu Deus para mudar de ideias – aquela mãe, certamente, tê-lo-á feito, porque as mulheres fazem-no todos os dias, há milénios. Pelo contrário, o profeta limita-se a dizer: «diz a Jeroboão», como se aquela vida sacrificada fosse um assunto entre homens, sem a reconhecer, no seu ser mãe, naquela “má notícia” que lhe estava a dar. Há também esta desumanidade, na Bíblia; não o devemos esquecer.

Mas, nesta história tremenda, a Bíblia faz-nos “ver” um pormenor da mulher: os seus pés. Nos pormenores, não se esconde apenas o diabo. Como nas origens da criação, onde neles está Deus e não o grande divisor, nos pormenores da Bíblia, de vez em quando, escondem-se também as bênçãos que, por vezes, resgatam maldições. O profeta ouve o “rumor dos passos dela”; quando “os teus pés chegarem à cidade, o menino…”; ao “ultrapassar” o limiar da porta de casa, o menino…”. Os momentos determinantes deste relato são marcados e medidos pelo movimento dos pés da mulher.

A Bíblia e os Evangelhos estão povoados por mulheres que caminham, movimentam-se mudam-se, e, quase sempre, “depressa”. Maria “dirigiu-se apressada” para Isabel; Maria de Betânia vai “apressada” ao encontro de Jesus para lhe dar a notícia da morte de Lázaro; e “abandonando depressa o sepulcro, com temor e alegria, as mulheres correram a dar a notícia aos seus discípulos”. Caminham e correm; amam com as mãos e com os pés, que conhecem porque cuidaram deles: “Maria era a que ungiu com perfume o Senhor e enxugou os pés com os seus cabelos”. Este tipo de ágape chama-se Maria.

A fé e a piedade continuam o se curso no mundo, porque homens e mulheres continuam a correr ao longo da vida. E, nesta corrida comum, os pés das mulheres correm de modo diferente e mais.

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