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Usinas nucleares paralisadas pelo calor extremo: a lição que podemos tirar disso.

Usinas nucleares paralisadas pelo calor extremo: a lição que podemos tirar disso

Por Alberto Ferrucci

Publicado na Città Nuova em 02/07/2026

A paralisação temporária de mais dois reatores nucleares franceses durante a atual onda de calor representa um sinal que vai além da notícia em si. A decisão da Électricité de France (EDF) de interromper o funcionamento das usinas de Nogent-sur-Seine e Bugey, após a suspensão anterior de um reator da central de Golfech, não foi motivada por problemas técnicos ou de segurança nuclear, mas pela necessidade de respeitar os limites ambientais relativos à temperatura das águas dos rios utilizadas para o resfriamento dos reatores.

O episódio demonstra que até mesmo uma fonte de energia confiável e capaz de fornecer eletricidade de forma contínua pode sofrer os efeitos dos eventos climáticos extremos. A energia nuclear não depende do vento nem do sol, mas necessita de grandes volumes de água para dissipar o calor produzido pelos reatores. Quando o volume dos rios diminui ou suas águas atingem temperaturas elevadas, a capacidade de resfriamento é reduzida. Continuar utilizando essa água sem restrições significaria devolvê-la aos rios em temperaturas capazes de comprometer os ecossistemas aquáticos.

Por esse motivo, as autorizações ambientais estabelecem limites específicos, que a EDF optou por respeitar, suspendendo temporariamente a produção. Essa vulnerabilidade afeta principalmente as usinas refrigeradas com água doce, enquanto aquelas localizadas no litoral, que utilizam água do mar, tendem a estar menos expostas a esse tipo de problema.

Do ponto de vista econômico, essas interrupções podem reduzir temporariamente a oferta de eletricidade e influenciar os preços, especialmente durante os períodos de maior demanda no verão. Segundo a operadora da rede elétrica francesa, entretanto, a capacidade disponível continua suficiente para atender ao consumo nacional. A França produz cerca de dois terços de sua eletricidade por meio da energia nuclear e é um dos principais exportadores de energia da Europa; entre os países importadores está a Itália, que, durante a noite, utiliza parte da eletricidade francesa de baixo custo para abastecer suas usinas hidrelétricas reversíveis, armazenando energia para utilizá-la nos horários de maior consumo. A paralisação dos reatores poderá, portanto, reduzir essa possibilidade de importação.

O episódio reacende o debate sobre a resiliência dos sistemas energéticos. As ondas de calor estão se tornando cada vez mais frequentes e intensas, tornando necessário projetar usinas mais adaptadas às novas condições climáticas, desenvolver sistemas de resfriamento menos dependentes da água doce e continuar diversificando a matriz energética. A energia nuclear permanece sendo uma das fontes de eletricidade com menores emissões de CO₂ durante sua operação, mas, como toda grande infraestrutura industrial, precisa enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.

A essa notícia soma-se outra, também significativa do ponto de vista ambiental. A ENI e a XRG, empresa internacional do grupo energético emiradense ADNOC, anunciaram sua participação no desenvolvimento de um projeto para exportação de gás natural liquefeito proveniente do campo de Vaca Muerta, na Argentina, uma das maiores reservas mundiais de gás de xisto (shale gas). A exploração desse campo exige o uso da técnica de fraturamento hidráulico (fracking), tecnologia que revolucionou a produção de gás nos Estados Unidos. Diversos estudos apontam que os vazamentos de metano durante a extração e a produção reduzem significativamente a vantagem climática do gás natural obtido dessa forma em relação a outros combustíveis fósseis, já que o metano possui um potencial de aquecimento global muito superior ao do dióxido de carbono.

Não se pode descartar que a grande expansão do uso do fracking na última década seja uma das causas que contribuíram para a atual aceleração das mudanças climáticas. Até agora, a ENI desenvolveu grande parte de sua produção de gás liquefeito a partir de campos convencionais. Sua entrada no projeto de Vaca Muerta representa, portanto, uma importante evolução em sua estratégia industrial. Será fundamental que a capacidade de inovação da ENI resulte em novas tecnologias de extração capazes de reduzir as emissões de metano e preservar o papel do gás natural na transição energética.

Embora tratem de tecnologias diferentes, as duas notícias transmitem a mesma mensagem: a segurança energética já não pode ser avaliada apenas pela disponibilidade dos recursos e pela continuidade da produção. É necessário considerar também a capacidade das infraestruturas de se adaptarem às mudanças climáticas e o compromisso dos operadores em reduzir os impactos ambientais ao longo de todo o ciclo de vida de suas atividades.

Crédito da foto: © Spiritrespect – wikimedia.org

Tags: Climate change, Cambiamento climatico