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Liberdade e trabalho, uma combinação impossível?

Mind the Economy - série de artigos de Vittorio Pelligra, publicados no jornal "Il Sole 24 ore"

por Vittorio Pelligra

publicado em italiano no Il Sole 24 ore em 29/11/2020

À primeira vista, a relação entre trabalho e liberdade parece ser antitética. O trabalho, de fato, implica necessariamente uma dimensão mais ou menos velada de coerção e controle, e isto é verdade não apenas para aqueles que trabalham na empresa de outra pessoa, dentro de organizações baseadas na hierarquia, mas também para aqueles que, como trabalhadores autônomos e independentes, se vêem obrigados a trabalhar pela necessidade de encontrar um meio de subsistência.

Trabalho e liberdade não são antitéticos

Após a expulsão do Éden e a condenação de ganhar o pão "pelo próprio suor", o trabalho adquire uma conotação negativa e permanece por muito tempo como prerrogativa dos escravos. Hoje as coisas são diferentes, é claro, e o trabalho é retratado como uma atividade enobrecedora. No entanto, nem sempre é assim, mas certamente pode ser. 

Contudo, a ligação entre trabalho e liberdade ainda não está totalmente clara. Pode-se realmente ser livre quando se trabalha, quando se é obrigado a trabalhar para viver? Eu tenderia a responder que não só a liberdade é possível, mas é uma condição necessária para que um determinado trabalho seja considerado um gerador de sentido. Evidentemente, o fato de ser uma condição necessária não significa que ela esteja, na prática, sempre presente. Pelo contrário. A história da evolução das formas de trabalho tem levado a formas crescentes de restrição dos espaços fundamentais de liberdade. O taylorismo, com sua organização científica do trabalho, baseia-se em certos princípios que negam, de fato, o reconhecimento dessas liberdades individuais.      

Os três princípios que negam a liberdade

A divisão do trabalho e a quebra dos ciclos de produção tornam supérfluas todas as habilidades do trabalhador, exceto uma, que é necessária para executar corretamente a tarefa que lhe foi confiada. Dessa forma, torna-se mais fácil controlar e eventualmente substituir o trabalhador e, ao mesmo tempo, nega-se a ele a liberdade de vivenciar o trabalho como uma oportunidade de "autorrealização".

Um segundo princípio, o da separação entre a concepção do trabalho, que é responsabilidade dos gerentes e engenheiros, e sua execução, que é responsabilidade da maioria dos outros trabalhadores, implica a negação daquela forma de liberdade que podemos chamar de "autonomia".

O terceiro princípio é o da concentração do poder de decisão exclusivamente nas mãos da direção, que supervisiona e gerencia todo o processo do trabalho; o exercício desse poder representa uma violação, mais ou menos evidente e mais ou menos pesada, da liberdade da "dominação por terceiros".

A possibilidade da autorrealização

O taylorismo hoje parece cientificamente ultrapassado, mas ideologicamente ainda está presente e muitos de seus princípios ainda são amplamente adotados e regem o funcionamento de muitas de nossas organizações. A evolução que as formas de trabalho sofreram é generalizada, mas não é nem necessária nem irreversível. Refletir sobre o trabalho como uma atividade geradora de sentido pode nos ajudar a entender como recuperar aqueles espaços de liberdade que hoje são impedidos a um número excessivo de trabalhadores. A primeira forma de liberdade, indissoluvelmente associada à busca de significado existencial e ameaçada pela organização moderna do trabalho, é constituída, como já dissemos, pela possibilidade de " autorrealização".

A possibilidade de desenvolver plenamente o próprio potencial, de colocar em ação e fazer crescer as próprias capacidades e talentos individuais, de "florescer" como pessoa, de alcançar a virtude da excelência, o areté aristotélico, que por si só traz felicidade "eudaimônica", com seu valor e senso de propósito. Como é evidente, essa é uma forma de liberdade que, longe de considerar o trabalho como um obstáculo, o considera como um caminho necessário para o autorrealização, e leva em conta o trabalho árduo, os desafios, as dimensões individuais e relacionais. Todas essas são características que podem ser encontradas naquelas atividades que Alasdair MacIntyre definiu como "práticas", ou seja, toda forma de «atividade humana cooperativa coerente e complexa socialmente estabelecida, através da qual os valores inerentes a essa forma de atividade são realizados no curso da tentativa de alcançar aqueles modelos que lhe dizem respeito e a definem parcialmente. O resultado é uma extensão sistemática das faculdades humanas de alcançar a excelência e das concepções humanas dos fins e valores implícitos» ("Dopo La Virtù", Armando Editore, 2007).

Coerente, complexo e cooperativo, essas são as características que um trabalho deve ter a fim de se aproximar do ideal de uma "prática", como entende MacIntyre, voltada para a excelência. E enquanto alguns trabalhos, intrinsecamente, não possuem essas características, muitos outros podem ser repensados e reorganizados para oferecer ao trabalhador novos espaços de autorrealização.

A importância da liberdade e da autonomia

A segunda forma de liberdade a que nos referimos é a "autonomia", que tem a ver com a possibilidade de raciocinar e deliberar sobre meios e fins alternativos, de tomar decisões a respeito de assuntos que nos dizem respeito, de ter a possibilidade de fazer ouvir a própria voz e de ter alguém disposto a aceitá-la e a colocá-la em uma condição de respeito mútuo.

A autonomia pode dizer respeito à possibilidade de escolher livremente um trabalho que desejamos fazer e para o qual nos sentimos chamados; pode também significar que o trabalho, qualquer trabalho, pode nos dar autonomia, no sentido de uma segurança econômica que é uma condição prévia para uma vida independente e livre de necessidades; há, finalmente, um terceiro sentido e é o que mais se aplica à nossa discussão, que se concentra na possibilidade de vivenciar espaços de autonomia na esfera do trabalho.

A ligação entre essa forma de autonomia e a possibilidade de encontrar um sentido no trabalho que se faz é direta. Somente a liberdade de tomar decisões relevantes sobre as formas e propósitos que se quer dar à própria atividade pode nos fazer sentir que esta atividade é efetivamente nossa e, portanto, significativa. A esfera de decisão, em particular, deve dizer respeito aos fins que nos propomos, aos meios e planos de ação que desejamos atingir e, em terceiro lugar, à possibilidade de rever e possivelmente modificar ambos, tanto os fins como os meios.

Redesenhar organizações capazes de oferecer a seus membros maiores espaços de autonomia significa repensar, antes de tudo, na divisão entre o momento de projetar o trabalho e o de sua execução, que está no coração, como vimos, dos modelos de gestão da derivação Taylorista. Isso significa, entre outras coisas, avançar para uma organização menos hierárquica, mais inclusiva e uma definição mais matizada e flexível das tarefas, capaz de garantir a todos os trabalhadores um certo grau de acesso às funções das quais tradicionalmente foram excluídos, tais como políticas de recrutamento, determinação da remuneração, distribuição de papéis internos, definição de novos produtos e serviços, para citar apenas alguns.

A possibilidade de autorrealização e da ação autônoma referem-se a uma concepção "positiva" da liberdade: a liberdade "de" dar algo ou de exercer uma faculdade.

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