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O paradoxo do trabalho de quem cuida das pessoas: alto valor, baixo salário

Os Comentários no "Il Sole 24 Ore" - Mind the Economy, a série de artigos de Vittorio Pelligra, publicados no jornal "Il Sole 24 ore"

por Vittorio Pelligra

publicado no jornal Il Sole 24 ore em 27/09/2020

O trabalho é, antes de tudo, cuidar, cuidar de si mesmo, cuidar dos outros, cuidar do Mundo. Com o nosso trabalho, contribuímos para o processo de humanização do ambiente ao nosso redor e ao mesmo tempo humanizamos nosso "ambiente interno", ou seja, nós mesmos. Nos projetos em nossas comunidades, trabalhando, devolvemos àqueles que compartilham o nosso mesmo destino, aquilo que devemos a eles ou recebemos deles, numa dinâmica de reciprocidade que pode gerar, ao mesmo tempo, bem-estar e significado, e, simultaneamente, construímos nossa identidade feita de propósito, autoestima e reflexo diante dos olhos dos outros.

Entretanto, é necessário reconhecer que, embora o trabalho esteja associado ao cuidado, o cuidado nem sempre é considerado trabalho. Existe uma indiferença nessa relação que ataca e provoca suspensão como um sintoma de um distúrbio patológico. A essência do trabalho parece lutar para obter acesso à dignidade, status e reconhecimento social, devido a qualquer trabalho propriamente dito.

Ter "necessidades"

Certamente existem razões históricas para esse descaso, ligadas ao próprio conceito da necessidade do cuidado, dependência e vulnerabilidade. Pedir, assim como oferecer cuidado, humilha e degrada. E não apenas os "necessitados", mas todas as figuras que entram em contato com a vulnerabilidade, como aqueles que na história foram associados ao trabalho do cuidado - escravos, servos, mulheres – que foram considerados objetos de estigma e desqualificação.

O papel da mulher

O papel tradicional da mulher, "natural" prestadora de cuidados, papel que, como tacitamente é aceito ou imposto, sempre foi considerado "garantido", tanto no sentido de "determinado" e "indiscutível", como no de "depreciado", "desvalorizado", "não suficientemente reconhecido", para ser exato. Mas a questão do rebaixamento do trabalho do cuidado não tem apenas origens históricas; há questões culturais, teóricas e ideológicas que contribuíram para fortalecer essa visão, inclusive nos âmbitos insuspeitados, como os das teorias filosóficas da justiça.

Como responder às perguntas que surgem da necessidade de cuidar das pessoas que serão dependentes ao longo de suas vidas? Como lidar com as dependências temporárias, que todos nós, geralmente considerados autônomos e autossuficientes, vivemos como crianças e viveremos - esperamos - como pessoas idosas? E como tratar aqueles que são chamados por vocação humana e profissional ou são forçados por papeis, normas ou circunstanciais a dedicar grande parte de suas vidas ao cuidado dos outros? Essas são questões para as quais existe uma necessidade cada vez mais urgente, dada a dinâmica demográfica da nossa sociedade, de dar respostas que, no momento, estão faltando.

Começaremos afirmando claramente que é falsa a crença de que a vulnerabilidade e a dependência são uma questão de preocupação apenas para uma infeliz minoria. A experiência da vulnerabilidade, pelo contrário, é generalizada. Cada um de nós é vulnerável, em graus variados, ao longo de nossas vidas, e em certos momentos esta vulnerabilidade chega a ser inclusive total. Basta pensar na primeira infância, ou na velhice, ou em períodos de doença. Nesses momentos somos tão vulneráveis que não poderíamos sobreviver se outra pessoa não cuidasse de nós.

O fardo do cuidado

Muitas vezes tal necessidade é tão generalizada que aqueles que cuidam dos outros correm o risco de não serem capazes de cuidar suficientemente de si mesmos. Pense em uma mãe com um filho recém-nascido ou um filho com os pais idosos não autossuficientes, e como tais relações podem ser exclusivas. O termo exclusivo aqui é uma indicação de quão facilmente se pode correr o risco de que a pessoa sobre a qual recai o ônus do cuidado seja excluída da rede de relações sociais significativas, ou mesmo excluída da participação no mercado de trabalho.

Cada um de nós, portanto, viveu, está vivendo ou viverá uma experiência de vulnerabilidade e de consequente dependência, porque tal experiência não representa uma eventualidade rara e excepcional, mas sim, como afirma a filósofa Eva Kittay, uma "implicação de nossa própria natureza biológica". Justo por isso, nenhuma sociedade conseguiria viver por mais de uma geração se os seus membros não respondessem adequadamente a essa demanda do cuidado.

A eliminação da vulnerabilidade

Nesse aspecto, há um estranho paradoxo com reflexos quase freudianos. Com um notável exercício de remoção cultural, a vulnerabilidade, ainda que seja, como vimos, uma característica definidora da experiência existencial de cada um de nós, foi removida das categorias fundadoras da nossa vida comum, como um perigoso resíduo amnésico.

Tal exercício de remoção foi claramente diagnosticado por Alasdair MacIntyre, que escreve: "A vulnerabilidade (...) e a dependência em suas manifestações parecem tão evidentes que não é possível dar uma explicação confiável da condição humana, sem reconhecer a centralidade do seu papel. No entanto, a história da filosofia ocidental oferece um quadro substancialmente diferente. (...) Porque - continua MacIntyre - os doentes, os que sofrem ou os deficientes encontram o seu lugar nas páginas de um livro de filosofia moral, apenas e sempre, como um possível objeto de benevolência pelos verdadeiros agentes morais" (Dependent Rational Animals: Why Human Beings Need the Virtues, Open Court, Chicago, 1999).

Martha Nussbaum segue a mesma linha quando questiona-se retoricamente: "O que as modernas teorias contratuais da justiça têm para nos dizer sobre [os problemas de vulnerabilidade e dependência]"? Ela conclui: "praticamente nada" (Capacidades e Deficiências: Justiça para Cidadãos Deficientes Mentais, Universidade de Chicago, 2003).

Uma remoção que gera, como Freud havia intuído corretamente, um estado de neurose, que nesse caso, é coletiva.

O "ser relação" na abertura para com o outro

Não seremos capazes de compreender e valorizar plenamente o trabalho do cuidado como deveríamos se não conseguirmos substituir a premissa antropológica do agente racional, autônomo e independente, por uma visão descritiva, porém realista da "pessoa", ou seja, sujeita, vulnerável, dependente e em uma relação constante de interdependência mútua. Uma mudança radical que muda o "ser indivíduo" do centro da narrativa da modernidade e coloca o "ser relação", que se torna uma pessoa aberta para com o outro.

Essa ação, consequentemente, encontraria raízes nobres na tradição do humanismo civil. Leonardo Bruni, quando em meados do século XV, escreveu uma introdução à Política de Aristóteles, descreveu o ser humano como "animal fraco, por si só insuficiente [que] atinge sua perfeição somente na sociedade civilizada". Somos humanos, neste sentido, porque, antes de tudo, somos fracos e, portanto, insuficientes para nós mesmos. Daqui se conclui que só podemos encontrar a plena realização dentro de um contexto social, dentro da vida civilizada. Ele escreveu isso no prefácio do livro da Política, pois esse encontro de insuficiências e a emergência de uma ordem social baseada na assistência mútua, representa a própria essência, na tradição do humanismo, da vida civil.

De indivíduos autônomos a pessoas dependentes, portanto, eis como Luigi Pareyson declarou na Ontologia da Liberdade: "O homem é uma relação, não no sentido de que ele está em relação com, ou, mantém relações com: o homem é uma relação, mais especificamente, uma relação com o ser (ontológico), assim como com o outro" (Einaudi, 1995).

Giuseppe Maria Zanghì também insiste no mesmo ponto quando afirma que "o homem é chamado a amadurecer como uma pessoa em comunhão; (...) é esta comunhão realizada que revela a pessoa para si (...). O indivíduo é ele, em si mesmo, já a pessoa é ela mesma no outro. (...) O indivíduo de si mesmo não pode se tornar uma pessoa". É seu ser em relação, a sua abertura ontológica aos outros, portanto, que constrói a pessoa "a maturação do indivíduo", para usar as palavras de Zanghì. Se, portanto, as pessoas se realizam e florescem plenamente apenas dentro de uma rede de relações feitas também de assistência e cuidado mútuos, como é possível que o trabalho de assistência e cuidado tenha sido rebaixado, deserdado e, finalmente, removido?

O envolvimento emocional

Uma das razões tem a ver com o fato de que o trabalho de cuidar torna o praticante vulnerável. Muitas vezes economicamente, porque, por exemplo, no ambiente familiar, uma mulher que é responsável por uma grande parte do trabalho de cuidar das crianças ou dos pais idosos vê a sua possibilidade de participação no mercado de trabalho severamente restringida. E além desse fato, o cuidado também torna as pessoas vulneráveis em outro sentido, talvez até mais profundo, por desenvolver uma relação empática na qual o envolvimento emocional é uma parte integrante.

O cuidado é um "bem relacional" cuja a importância depende da qualidade da relação e, portanto, da identidade dos sujeitos envolvidos e de sua história passada. Isto limita significativamente a possibilidade de substituição do serviço e muitas vezes torna os cuidadores "prisioneiros do amor". Enquanto o mercado funciona bem para bens homogêneos com um alto nível de possibilidades de substituição, com esses "bens relacionais", que são difíceis de serem comercializados, seu funcionamento encrava e isso torna complicado o processo de atribuição de um valor, cuja a essência não se reduz à prestação de um serviço, justamente porque incorpora a qualidade da relação inter-humana.

Uma dimensão difícil de quantificar

Há também um terceiro elemento do trabalho de cuidar que escapa à hermenêutica mercantil, que é o fato da dimensão típica dos bens públicos, uma dimensão que é difícil de reconhecer, de medir e, portanto, de recompensar. Esses elementos estão, entre outros, na base daquelas formas de segregação que preveem uma distribuição desigual da carga do cuidado entre homens e mulheres, e que também estão na raiz da desvalorização e da depreciação de tal trabalho que, precisamente por causa do status ainda difundido, tende a penalizar mais o trabalho das mulheres.

Mas se o "custo de produção" do serviço de cuidar é tão alto e a sua remuneração tão baixa, não deveríamos esperar uma redução em sua oferta? Uma redução da disponibilidade, especialmente por parte das mulheres, em serem exclusivas e, ao mesmo tempo, não reconhecidas, responsáveis pelo trabalho de cuidar? De fato, é exatamente isso que estamos observando: a crise demográfica é uma consequência dessa falta de reconhecimento, assim como a crescente instabilidade das famílias e o aumento dos gastos privados com a compra de serviços de assistência. Todos esses são sintomas, dentre muitos, do mesmo fenômeno.

O paradoxo do salário mínimo

Depois há outro tema que este discurso aborda, um tema relacionado à eficiência. O trabalho de cuidar, efetivamente como qualquer trabalho profissional, tanto na família como no mercado formal, está fortemente ligado à natureza das motivações individuais. Aqueles que optam por se envolver neste tipo de atividade são geralmente movidos por fortes motivações intrínsecas. A pessoa não se torna enfermeira ou assistente social para ficar rica, e não escolhe ensinar na escola primária porque é motivada por ambições de carreira.

Este fato, entretanto, está na raiz de um perigoso paradoxo que precisa ser explicitado. A natureza vocacional do trabalho e suas motivações intrínsecas tendem a baixar o que os economistas chamam de "salário de reserva", ou seja, o salário mínimo, ao qual um trabalhador está teoricamente disposto a trabalhar. Isso reduz o poder de mercado dessas categorias de trabalhadores e ajuda a deprimir seus salários. A falta de reconhecimento econômico determina, então, um quadro dominado pela "retórica meritocrática", ou seja, uma desvalorização também social do seu papel e com isso, consequentemente, exerce um efeito de desorientação no que diz respeito às motivações intrínsecas.

Sabemos que a produtividade do trabalhador e a qualidade do seu trabalho dependem diretamente dessas razões, e se estas forem corroídas, a qualidade do desempenho e, portanto, a eficiência geral do sistema sofrerá. Foi preciso uma pandemia global para descobrir a importância do papel dos enfermeiros e alguns meses de ensino à distância para entender como professores motivados são fundamentais para o futuro de nossas crianças. Começamos apenas a abrir nossos olhos. Devemos prosseguir nesse caminho e continuar a descobrir o quanto a nossa vulnerabilidade e dependência mútua podem realmente ser o ponto forte das nossas comunidades.

Uma narrativa "diferente

Carol Gilligan, psicóloga da Universidade de Harvard, explicou muito bem a questão acima, em sua importante In a Different Voice (Harvard University Press, 1982) onde dá voz a uma nova história, narrada de uma perspectiva feminina, sobre o crescimento moral individual e social. "Ver você mesmo inserido em uma rede de significativas relações inter-humanas e compreender como essa rede é o lugar do nosso florescimento - representa, segundo Gilligan - o ponto de chegada de um longo processo de amadurecimento moral que nos leva de: uma situação em que o único interesse é cuidar de si mesmo a um ponto em que entendemos que a relação com o outro em necessidade é uma relação entre sujeitos integrais, e não entre um que sacrifica a si mesmo e o outro que se beneficia com o sacrifício".

Reconhecermo-nos como "sujeitos integrais" independentes ou, talvez, precisamente por causa da nossa dependência, quem sabe nos ajudaria a construir comunidades mais acolhedoras e a dar ao trabalho de cuidar, um reconhecimento social necessário ou ao menos à altura do seu papel indispensável e de sua dignidade intrínseca e inegável.

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