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O ódio na época das mídias sociais: pouco orgulho e muito preconceito

Os Comentários no "Il Sole 24 Ore" - Mind the Economy, a série de artigos de Vittorio Pelligra, publicados no jornal "Il Sole 24 ore"

por Vittorio Pelligra 

publicado no jornal  Sole 24 ore em 03/11/2019

Nestes dias, iniciou-se uma polêmica a ser tratada também entre aspas, sobre algumas possíveis reparações à explosão do ódio e da agressividade que se experimenta, já há algum tempo, sobre as plataformas sociais. O discurso do ódio está se transformando em cifras, quase que em um gênero literário, que caracteriza muitas, e até demais, as nossas comunicações virtuais. A difusão desse modo de comunicação medíocre e violento retrata repercussões profundas e mensuráveis quanto ao nível de confiança interpessoal e também sobre o bem estar individual que atinge aqueles que são, de alguma maneira, vítimas ou apenas espectadores inocentes. O tema é relevante, não apenas pela qualidade do debate público e pelo seu pluralismo, mas também pela vulnerabilidade que as redes sociais têm demonstrando às manipulações políticas e ideológicas. 

O preconceito na raiz de tudo

Na raiz dos conflitos que surgem tão facilmente na web, quase sempre existe o tema sobre o preconceito: uma divisão de lados opostos que constituem-se sobre um conjunto de crenças baseadas nas definições clássicas referentes ao medo, a ignorância, a falta de modelos de vida e objetivos compartilhados que, muitas vezes, são renovados e reforçados pelo uso instrumentalizado da autoridade. O debate sobre o papel que as redes sociais têm, no alimentar e dar voz a essa onda de ódio online e sobre o uso instrumental que certas políticas podem fazer, concentrou-se principalmente sobre características próprias desse meio.          

A atenção focalizou-se em grande parte sobre a sua peculiariedade, no tema do anonimato, do uso e abuso de perfis falsos, de agentes automatizados, na verificação dos fatos que os administradores das plataformas deveriam ou não inserir, apenas para dar alguns exemplos. Mas o  preconceito, a raiz da desconfiança e do ódio pelo "diferente" certamente não nasce nas redes sociais; entretanto, esses argumentos foram potencializados e, sobretudo, multiplicados em escalas. Hoje, simplesmente, interagimos de maneira telemática, ativa ou passivamente, com muito mais pessoas do que como fazíamos até alguns anos atrás.    

O resultado é uma exposição à uma diversidade de opiniões, de razões, de pensamentos, às vezes extremos e difíceis de se encaixarem em nossos paradigmas usuais, nunca experimentado antes, que naturalmente geram tensões entre aqueles de 'dentro do grupo' com aqueles de 'fora do grupo', entre aqueles, de um lado, com os quais nos identificamos e compartilhamos um certa visão do mundo, e do outro, com todos os que estão 'fora do nosso grupo'.     

A equação da Web: mais distância, mais conflito

Mas se isso é verdade, então, a diferença entre a experiência do conflito interpessoal pre e pós-social, não é tanto uma diferença de qualidade, mas sim, de quantidade. Mais comunicações, maior heterogeneidade, maior distância e diferença no modo de pensar e sobre as opiniões e, consequentemente, maiores conflitos. É a quantidade, mais que a qualidade nas diferenças, que são colocadas em jogo na chamada câmara de eco.                           

Os grupos sociais sempre se uniram baseados nas afinidades: a mesma música, o cinema, adeptos do futebol, a fé política e assim por diante. Uma forma de auto seleção em grupos que tinham, por um lado, uma função defensiva, e ao mesmo tempo, fortalecia a identidade do indivíduo. Reconheciam-se nas crenças um dos outros.                  

Hoje, na web acontece o mesmo, consciente ou não, a pessoa se expõe àquelas fontes informativas que nos trazem as mensagens que melhor se adequam as nossas pre concepções iniciais, mensagens que depois são encaminhadas às pessoas que têm convicções semelhantes, convicções que são fortalecidas, tudo isso em um jogo de ecos e encaminhamentos que identificam e fecham os grupos às influências externas. Por esse caminho, não só as posições são fortalecidas, mas também polarizadas, tornando-as mais extremas e distantes e, portanto, potencialmente mais conflituosas.   

O preconceito nasce antes da Rede

Contudo, a raiz do processo do preconceito já estava ali muito antes da web. Já caracterizava as nossas comunicações muito antes que o bit começasse a viajar através das fibras óticas. Portanto, se quisermos abordar seriamente a questão do conflito on-line, devemos ir à raiz, sair da moldura e procurar  soluções que possam analisar a origem do problema, não apenas os sintomas que estão mais em evidência. Como combater o preconceito, portanto, tornar-se a verdadeira chave da questão. Mas de qualquer forma, o preconceito é um conceito peculiar, pois nasce da preseça do outro. 

De fato, porque o outro é diferente de mim, que torna-se necessário formar uma opinião deste outro. É a sua singularidade, que coloca em discursão a minha individualidade, que faz com seja necessário descobrir que o outro é um outro "eu". Mas antes que essa descoberta aconteça, como magistralmente nos ensinou Tzvetan Todorov, o outro será um não-nós; uma imagem que formamos para assinalar a diferença, a distância, a irredutibilidade do meu eu. Essa é a origem e a raiz do preconceito. E se essa é a origem, o antídoto só pode estar no processo de "descoberta" do outro.         

«O outro deve ser descoberto – adverte Todorov – e isso pode ser surpreendente se pensarmos que o homem nunca está sozinho, e nem poderia pela sua dimensão social (...) E visto que a descoberta do outro percorre diversos degraus - do outro como objeto, confuso com o mundo que o circunda, até ao outro como um sujeito igual a mim, mas este diverso com uma infinidade de nuances intermediárias - é possível passar a vida toda, sem nunca alcançar a plena descoberta do outro» (A Conquista da América. O problema do outro. Einaudi, 1984).

A difícil descoberta do outro

Paradoxalmente, as comunicações mediadas pela web, embora cresçam potencialmente em número, são sempre mais difíceis, porque o outro, realmente arrisca ser transformado em um «objeto confuso com o mundo que o circunda». E é por isso que, portanto, a luta contra o preconceito dever ter mais força. Um dos trabalhos que mais contribuiu para estabelecer as bases da compreensão da gênese do preconceito e também dos seus possíveis anticorpos, é o volume de Gordon Allport, A Natureza do preconceito (The nature of prejudice - Basic Books, 1954).

Allport é também o pai da «hipótese do contato», uma hipótese segundo a qual a conflitualidade e o preconceito entre os 'internos de um grupo' e os 'de fora dele' poderiam gradualmente reduzir, após um contato entre os membros dos dois grupos diferentes, entre aqueles que odeiam e os que são odiados, assim permanecendo no contexto dos conflitos sociais. Naturalmente, até que isso aconteça, é preciso que esse contato se submeta a determinadas condições: uma delas é que o status das pessoas envolvidas não pode ser diferente demais.     

A diferenças de instrução, de renda, de experiências não ajudam a encontrar um ponto em comum de compreensão, logo devem ser minimizadas; seria preciso estruturar o encontro em torno dos objetivos em comum. Os grupos devem trabalhar e abordar os problemas compartilhados que ajudem a criar pontes para os esforços e recursos, mirando o alcance de um único objetivo; por fim, essa atividade de encontro deveria receber o apoio da figura de uma autoridade, da lei ou dos processos vigentes, que deveriam encorajar o contato amigável e igualitário, desencorajando cada forma de competição e conflitualidade entre os grupos.        

A história da análise sobre o preconceito

Eram os anos pós-guerra, quando Allport propôs a sua hipótese e lançou um programa inteiro de pesquisa voltado à análise das características do preconceito, da sua dinâmica contagiosa e das suas possíveis soluções. Nesses mesmos anos, os Estados Unidos inauguraram importantes processo de desagregação e emancipação dos cidadãos negros e das mulheres, e a hipótese de Allport forneceu um guia teórico e operacional muito útil. Nos anos sucessivos, o projeto de pesquisa avançou e foram produzidos centenas de estudos que testaram a validade empírica da hipótese do contato.

Em 2006, Pettigrew e Tropp conduziram uma meta-análise sobre 515 estudos realizados entre as décadas de 1940 e 2000 ("Um teste meta-analítico da teoria do contato entre grupos", Journal of Personality and Social Psychology, 90(5), pp. 751–783). Apesar dos limites metodológicos de alguns dos estudos mais antigos, o quadro que emerge fornece um robusto embasamento à hipótese do contato.

Revertendo esses resultados sobre o problema da proliferação do ódio on-line, certamente poderíamos sublinhar um fato pessimista: se o contato favorece o desaparecimento do preconceito, relações mediadas pela tecnologia que, por sua natureza, impedem o contato, certamente serão incubadoras de preconceitos.

Os anticorpos se formam na vida on-line  
Se isso é verdade, entende-se porque é necessário que os anticorpos se formem e comecem a atuar fora da dimensão virtual, a partir da vida real. E aqui, certamente não faltam os campos de intervenção. Dois para todos: a escola e a cidade. 

A tradição de inclusão das escolas italianas, que proporciona o "contato", na mesma sala de aula, de pessoas com deficiência física e intelectual, crianças de diferentes origens sociais, de etnias e religiões diversas, em um processo de integração e conhecimento recíproco, representa um caso de excelência cada vez mais reconhecido, valorizado e fortalecido, com adequados instrumentos de investimentos.

Essas experiências não só têm um efeito positivo no desempenho escolar dos alunos, mas também contribuem para neutralizar os processos de germinação do preconceito e da desconfiança. Em termos de planejamento urbano, seria interessante refletir sobre o quanto as nossas cidades estão favorecendo a segregação de grupos homogêneos, de separação, de confrontos, ao invés de promover o encontro. 

É cada vez mais urgente "restaurar" as nossas periferias individualizantes e desumanizadoras, e construir espaços de encontro e conhecimento recíproco, lugares onde se pode fazer a experiência da diversidade, onde se pode aprender a cooperar, a dar a nós mesmos objetivos comuns e compartilhar recursos materiais e imateriais. Porque o ódio na web se combate, antes de tudo, cultivando sementes de civilidade fora da web e criando quantas ocasiões forem necessárias para o "contato", impedindo assim que a maioria acabe "passando pela vida sem nunca ter descoberto plenamente o outro" e ainda, passar a sua existência trancado na pior de todas as celas: a do próprio eu. 

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