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O capitalismo está mudando: 4 indícios que uma revolução ética está acontecendo

Os Comentários no "Il Sole 24 Ore" - Mind the Economy, da série de artigos de Vittorio Pelligra, publicados no jornal "Il Sole 24 ore"

de Vittorio Pelligra

publicado no jornal "Sole 24 ore" de 22/09/2019

É mesmo verdade que não existe mais o bom e velho ávido capitalismo de uma vez. Aquele no qual Milton Friedman, no famoso artigo do New York Times, de setembro de 1970, recomendava uma única e inevitável missão: aumentar os lucros das empresas; ou aquele que, pelo qual, segundo o economista de Harvard, Greg Mankiw, é imprescindível defender os 1% dos mais ricos das incompreensíveis e injustificáveis reivindicações redistributivas dos restantes 99% de nós, meros mortais. (Defending the One Percent. Journal of Economic Perspectives, 27(3), pp. 21–34).

Aquele da doutrina do “trickle-down” (gotejamento), segundo o qual, se baixarmos as taxas para os extremamente ricos, estes ganharão muito mais e, parte dessa riqueza, como migalhas na mesa do Homem Rico, mais cedo ou mais tarde chegará para matar a fome de todos os outros. Mas será que “Todo cambia”, como cantava Mercedes Sosa; já "Tudo Mudou"? De fato, no último dia 19 de agosto, os representantes da Business Roundtable, poderosa organização composta pelos diretores executivos de duzentas das mais importantes empresas americanas, da Amazon à Apple, da Ford ao JP Morgan, assinaram um documento com o qual se comprometem a orientar as suas empresas para uma nova "missão": não apenas os lucros, mas ações responsáveis direcionadas ao meio ambiente, às futuras gerações e a todas as partes interessadas, fornecedores e, claro, também aos trabalhadores.

E nesse estranho clima controverso, nesta última semana, saiu uma manchete na qual o Financial Times, através do seu editor Lionel Barber, anuncia que para o capitalismo chegou a hora de um “reset”. Quem o diz é o Financial Times, não a Gazeta dos "Pobres Coitados". E por fim, há alguns dias, o fórum IGM da Universidade de Chicago entrevistou os mais importantes economistas europeus, e verificou-se que 82% deles dizem concordar ou concordam fortemente com a afirmação segundo a qual as crescentes desigualdades estão colocando em risco o domínio das democracias liberais.

Jogo parado, recomeça-se. A reação das opiniões públicas e dos comentadores em relação a essas repetidas quedas do cavalo a caminho de Damasco são, obviamente, muito variadas; todavia, geralmente, se polarizam em direção ao entusiasmo panglossiano, por um lado, e às conspirações cínicas mais clássicas, por outro.

Os investimentos sustentáveis

No entanto, parece inegável que algo está acontecendo; é evidente. E as tendências globais que esse revisionismo repentino, mais ou menos convincente, estão fazendo emergir, são importantes e não devem ser de nenhuma forma subestimadas. Dentre todas, gostaria de ressaltar quatro: a primeira tendência tem a ver com o próprio oxigênio que as empresas respiram, a seiva da qual precisam para se desenvolver e crescer, ou seja, os investimentos. Está surgindo, no mercado dos investimentos, novas abordagens, talvez, no momento, mesmo se por moda, mas, todavia, capazes de movimentar bilhões de dólares, através de mediações de fundos, de um emprego ao outro, de um setor ao outro, de certos tipos de empresas para outras. Particularmente, viu-se, nestes últimos anos, um enorme desenvolvimento dos fundos de investimento com orientações éticas; ou seja, fundos administrados segundo os critérios da ESG (environmental, social, governance), ou seja, de sustentabilidade ambiental, social e de gestão empresarial.

A aposta da BlackRock

Só a gigante BlackRock lançou, no início deste ano, seis desses fundos. Tais fundos foram pensados para todos aqueles investidores que, com o próprio dinheiro, não só querem obter altos retornos econômicos, mas, querem também contribuir para a redução da emissão de gases de efeito estufa, por exemplo. Aqueles que fazem essa escolha de investimento o fazem para impedir que o seu dinheiro seja destinado a financiar as empresas que operam no setor de indústria bélica, desde armas nucleares a armas de fogo tradicionais, mas também as indústrias de tabaco, de carvão e de outros combustíveis fosseis, bem como todas as empresas que de alguma forma violam os princípios éticos fundamentais, como aqueles estabelecidos, por exemplo, pela Global Compact das Nações Unidas.

Mas porque um jogador fundamental como a Black Rock está apostando tanto em fundos éticos? A razão é que, de acordo com as suas previsões, esses fundos, num futuro próximo, não representarão mais apenas as escolhas exótica dos hippies ricos, mas as opções que se espalharão rapidamente pelos processos de investimentos convencionais. As estimativas apontam que, dentre os principais investidores institucionais, nos próximos cinco anos, pelo menos a metade terá uma carteira gerenciada, por mais de 50%, de acordo com os critérios de sustentabilidade da ESG. Só na Europa, nos próximos dez anos, espera-se que esses investimento aumentem cerca de 20 vezes.          

As novas prioridades dos jovens

A segunda tendência que está emergindo de forma dominante está, de alguma forma, ligada à primeira e associada às dinâmicas intergeracionais. Novos investidores estão entrando no mercado, sendo eles predominantemente jovens e decididamente mais sensíveis do que seus pais, em relação aos temas meio ambiente, direitos, sustentabilidade, responsabilidade e transparência. Estima-se que, nos próximos anos, a geração pós-guerra transmitirá aos próprios filhos, à "geração Y" e à “geração X”, bens e economias aproximadas aos 30 trilhões de dólares. Uma massa enorme de riqueza, capaz de fazer a diferença em todo setor industrial e tecnológico e, certamente, capaz de influenciar, com o seu impulso financeiro, a evolução cultural coorporativa a nível global.

Será essa transferência, antes de tudo, que alimentará as escolhas éticas de investimento citados acima, porque as novas gerações têm, hoje em dia, prioridades muito diferentes em relação àquelas das gerações precedentes. Exigências diversas, projetos de vida e objetivos, muitas vezes, radicalmente em contraste com aqueles dos seus pais. Será a mutação cultural que já está em ação, através da crescente disponibilidade financeira, a alimentar a pressão que impulsionará, num futuro próximo, o capitalismo, senão para um verdadeiro e próprio "reset", seguramente para uma evolução orientada para a clarividência e para a sustentabilidade.            

Consumidores mais conscientes

Os dois últimos estímulos às mudanças estão relacionados ao papel dos consumidores e dos trabalhadores, respectivamente. Visto que os "Geração Y" e os Geração X não são apenas investidores, mas sobretudo consumidores, as opções de consumo começam a ser cada vez mais orientadas por novos valores. Como hoje as garrafas plásticas já são substituídas por garrafas reutilizáveis, em breve o aumento das quotas dos consumidores começará a dar valor não apenas à qualidade e ao impacto do produto, mas também aos processos de produção.

O acesso sem custos, que a internet permite, às informações relevantes, tornará cada vez mais fácil para os consumidores orientar as suas escolhas de compra, por meio do chamado "voto-com-a-carteira" [NdT - termo que representa a consciência dos compradores quanto à sua soberania como consumidor], que recompensará aqueles bens produzidos por empresas responsáveis, que respeitam os direitos dos trabalhadores, do ambiente, da comunidade em que atuam e das leis dos países em que residem. A procura, nesse sentido, exercerá uma crescente pressão sobre as decisões dos produtores, sobre as suas escolhas éticas e sobre o nível de comprometimento e responsabilidade social.    

Ser responsável é conveniente para a empresa

Depois há um último ponto, magistralmente destacado por um estudo de Daniel Hedblom, Brent Hickman e John List, recém publicado pelo National Bureau of Economic Research (Toward an Understanding of Corporate Social Responsibility: Theory and Field Experimental Evidence. NBER Working Paper No. 26222, Setembro de 2019). Ser responsável é conveniente para a empresa, não só porque desse modo será recompensada pelos consumidores sensíveis, mas também porque será capaz de atrair trabalhadores mais motivados e produtivos. Para comprovar esse efeito, ao abrigo de qualquer possível distorção estatística, os três autores do estudo fundaram uma empresa. Essa empresa começou a enviar anúncios de emprego aleatoriamente em algumas das principais cidades americanas. Os anúncios se diferenciavam entre si por duas características fundamentais: salário e tipo de atividade. Algumas ofertas indicavam um salário por hora de US$11, enquanto outras prometiam US$15. Ao mesmo tempo, em alguns casos, a empresa era descrita como prestadora de serviços de uma multinacional, uma empresa com fins lucrativos não particularmente comprometida com a responsabilidade social; enquanto em outros casos, era descrita como associada a uma organização sem fins lucrativos que prestava serviços com descontos para projetos com alto impacto social. 

Na empresa sem fins lucrativos os trabalhadores são mais motivados

Uma vez selecionados e contratados, os trabalhadores foram colocados para realizar a atividade de inserção de dados, e a produtividade e a qualidade do seu trabalho foram cuidadosamente calculadas. Os resultados destacaram alguns dados interessantes: as ofertas de emprego na qual a empresa foi descrita como "sem fins lucrativos" apresentaram uma taxa de resposta significativamente mais alta do que a das ofertas na qual a empresa era descrita "com fins lucrativos", apesar da absoluta aleatoriedade na escolha dos destinatários. Em segundo lugar, uma vez contratados, os trabalhadores empenhados na versão sem fins lucrativos produziram um resultado qualitativamente melhor, apresentando uma maior produtividade do trabalho. Um benefício para a empresa equivalente àquele que poderia ter obtido através de um aumento salarial de 36%.

Alguma coisa realmente está mudando no capitalismo global? Ainda é cedo para dizer com absoluta certeza. O certo é que existem boas razões para que essa mudança aconteça. Se não por bondade, ao menos por conveniência, para antecipar aquelas profundas tendências das nossas sociedades, que cada vez mais, nos próximos anos, desafiarão os modelos de empresa tradicional, as motivações, a missão e a visão, que estão na base do funcionamento de milhares e milhares de empresas nos mercados internacionais.   

E depois, porém, tem a China. Mas disso falaremos em um próximo artigo do #MindtheEconomy.

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