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O conhecimento sem intermediários: um engano da contemporaneidade

O artigo faz parte de uma serie de artigos publicados por Vittorio Pelligra como colunista na seção "Mind the Economy" do "Il Sole 24 Ore"

por Vittorio Pelligra

Publicado no Il Sole 24 Ore em 28/07/2019

A mandioca é um tubérculo rico em vitaminas, cálcio e carboidratos; por milênios tem sido a base alimentar de populações inteiras nas várias áreas tropicais do globo que vão da Amazônia às ilhas do Pacífico Sul. Estas regiões estão expostas a condições climáticas adversas ao cultivo de outros vegetais. Ela cresce praticamente espontaneamente, é fácil de encontrar, é versátil de cozinhar, saborosa e, como dissemos, rica em nutrientes.

 

Há apenas um problema, é altamente tóxica; na verdade, contém glicosídeos cianogênios que, uma vez decompostos, libertam ácido cianídrico; a base, por exemplo, do Zyklon B, o veneno utilizado nas câmaras de gás dos campos de concentração nazistas para as execuções em massa. O envenenamento por cianeto que o consumo de mandioca pode gerar, causa problemas neurológicos, perturbações do sistema imunológico, da tireoide, até à paralisia dos membros inferiores. As populações que utilizam esta planta, entretanto, aprenderam a neutralizar o risco de intoxicação através de várias técnicas que tornam o alimento cozido com mandioca totalmente seguro.

Os Tukanoans da Amazônia colombiana, por exemplo, utilizam um processo que dura alguns dias: as raízes são raladas, depois filtradas, finalmente lavadas para separar as fibras da polpa líquida, que é então fervida e pode ser bebida, enquanto o restante deve decantar por mais alguns dias antes de ser cozido e comido. Este procedimento complexo reduz o teor tóxico da mandioca até quase desaparecer.

O que é realmente interessante é a origem deste procedimento, que nunca poderia ser sido imaginado por uma única pessoa. 

O envenenamento por cianeto que ocorre como resultado do consumo de mandioca não processada é particularmente sutil porque seus sintomas terríveis realmente só aparecem após muitos anos de consumo regular. Isso torna a ligação causal entre o uso da mandioca e o envenenamento altamente difícil e quase impossível de detectar (ver Joseph Heinrich, 2015, "O Segredo do Nosso Sucesso".  Princeton University Press).

Sabemos disso com certeza, porque, quando no início do século XVII, os conquistadores europeus exportaram mandioca da América do Sul para a África Ocidental, o fizeram negligenciando transmitir precisamente às populações africanas todo o conhecimento necessário para o seu uso alimentar seguro. Ainda hoje, séculos mais tarde, o envenenamento cianeto crônico é um problema endémico em várias áreas do continente africano.

Agora, vamos tentar imaginar uma jovem mãe Tukanoan que, em vez de passar dias e dias para processar a mandioca como a ensinavam quando criança, decide apenas fervê-la para eliminar seu gosto amargo. Dessa forma, ela resolveria os problemas do gosto amargo e, ao mesmo tempo, seria capaz de economizar um tempo precioso em seus dias para dedicar-se a outras atividades, como cuidar de seus filhos e de sua casa.  Só depois de muitos anos é que os membros da sua família começariam a apresentar graves problemas de saúde relacionados com o envenenamento que, neste momento, seriam difíceis de rastrear até à mudança de hábitos alimentares, uma causa remota que produziu efeitos difíceis de associar.

O que tem impedido, durante milênios, os Tukanoanos e todos os outros povos indígenas que habitualmente consomem mandioca de adotar tais comportamentos que, embora produzam benefícios a curto e médio prazo, se tornam letais após muitos anos?  Não pode ser uma forma de aprendizagem por experiência direta, como vimos.  Na verdade, como nos explica os antropólogos o que acontece é que esses indígenas possuem uma disposição de agir "pela fé"; de seguir os ensinamentos transmitidos de geração em geração ainda que não saibam o motivo pelo qual estão agindo daquela forma.

Somos uma "espécie cultural" sujeita a uma forma muito interessante de co-evolução na qual a genética influencia a cultura e, vice-versa, a cultura, modificando o ambiente, influencia a nossa história genética. Há cerca de dois milhões de anos, provavelmente, a evolução cultural começou a ser o principal impulso da nossa evolução genética. A capacidade de aprender e transmitir um conjunto de conhecimento que se adquire de forma cumulativa e que constitui a cultura dos povos, é o que nos tornou a espécie mais bem-sucedida neste pequeno planeta. Mas, como bem explica a história da mandioca, para que este sucesso seja alcançado através da transmissão cultural, devemos estar dispostos a aprender, devemos respeitar certas condições específicas.

Olhando para as sociedades tradicionais, descobrimos traços comuns que destacam os mecanismos necessários para a transmissão intergeracional do conhecimento. Para que a transmissão de códigos culturais e comportamentos adquiridos produza resultados favoráveis para quem os adota, é necessário compreender bem quem imitar. Quando os problemas são complexos, a incerteza é grande e as apostas são altas, as pessoas tendem a adotar atitudes conformistas, ou seja, tendem a imitar os outros, mas não todos os outros. Em geral, os jovens concentram-se nos idosos considerados sábios, naqueles que, num determinado grupo, ganharam prestígio em virtude da sua excelência numa determinada área, e em modelos que alcançaram um sucesso considerável precisamente porque aplicaram os mesmos princípios que transmitem.

Estamos de alguma forma programados para o fazer. Os neurocientistas do desenvolvimento explicam como, ainda muito pequenos, somos capazes de atividades complexas de "referenciamento social", ou seja, em nossa comunidade nos orientamos em busca de modelos para aprender, modelos para imitar. Estes modelos, por outro lado, os exemplos de prestígio e sabedoria que geralmente escolhemos imitar, têm, nas várias populações e culturas, qualidades semelhantes: são generosos na partilha dos seus conhecimentos, são bondosos na sua transmissão e pacientes; estas qualidades só aumentam o seu prestígio e a estima que os outros membros da comunidade têm por eles e, portanto, a sua "imitabilidade".

Apesar de nossos computadores, internet, viagens espaciais e conquistas científicas, nossos cérebros não mudaram muito nas últimas centenas de milhares de anos, assim como a nossa necessidade do outro, nossa vulnerabilidade e dependência do conhecimento que é em sua constituição comunitário e social. A evolução, incluindo a evolução cultural, atua, de fato, em outras escalas temporais. Isto significa que ainda precisamos de sábios bondosos, de modelos cujo prestígio seja reconhecido em troca de conhecimentos antigos e modernos.

A transmissão cultural é, ainda, fundamentalmente, uma questão de relações. O engano do acesso ininterrupto à informação e ao conhecimento foi revelado pelo que realmente é: um engano. A intermediação, a relação com os outros, especialmente com aqueles que foram capazes de ganhar experiência, acumular conhecimento, pô-lo à prova com sucesso e, desta forma, alargar o seu olhar, continua a ser um poderoso impulso evolutivo, tanto individual como coletivo. Mas onde estão esses gentis sábios nos dias de hoje? Qual seria a métrica de sucesso para escolhermos o "imitável"? Que lugar reservamos para eles em nossas comunidades? Talvez só as margens, as periferias do Império.

Provavelmente uma indicação disso é o prestígio que atribuímos socialmente aos professores de todos os níveis: praticamente zero; assim como a relação disfuncional que cada vez mais se estabelece entre escola e família, para não mencionar a afirmação de um conhecimento autoproduzido e incompreendido, combinado com a arrogância daqueles que sempre se sentem à altura de cada situação. Estes são traços de uma decadência que agora começou, da subversão das lógicas evolutivas antigas e necessárias, muitas vezes capazes de nos tornar, coletivamente, melhores do que poderíamos ser individualmente. Devemos, pois, empurrar-nos para aquelas margens e periferias, como novos Diógenes, à escassa luz da lanterna, em busca destes gentis sábios, de quem talvez, hoje, precisamos ainda mais. Encontrá-los e convencê-los a voltar ao centro das nossas praças, a retomar a sua obra fundamental de transmissão, ao mesmo tempo fiel e criativa, da profunda sabedoria da nossa espécie: aprender a ser, cada vez mais, não só "homo", mas sobretudo "sapiens".

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