ABCDEconomia "D" como "Dom" - 2ª parte

ABCDEconomia por Luigino Bruni

Dom. Não existe, se não houver a reciprocidade.
publicado no semanário Vita em 22 de Maio de 2009

Com a palavra "dom", que os leitores encontrarão, se conclui esta semana ABCDEconomia por Luigino Bruni. Esta palavra foi pensada como um guia para as palavras-chave do agir económico depois da queda dos mitos e do esvaziar das bolhas. Aqui está a lista das palavras analisadas: Felicidade, Lucro, Mercado,  Banca,  Investimento, Responsabilidade, Regras, Juros, Organização, Reciprocidade, Capital. Esta semana eis a segunda parte da palavra conclusiva: "Dom".

O dom consiste em uma forma de ação inspirada pela gratuidade, que é o impulso por procurar o bem dos outros e o bem comum. Eis uma experiência relacionada com este argumento: - Há alguns anos atrás, em Montevideu, algumas mulheres viviam pedindo esmolas diante dos supermercados. A um certo ponto veio uma ‘ONG’ e iniciou um projeto de cooperativa atraves do qual elas pudessem produzir trabalhos artesanais confeccionando lenços bordados.

ABCDEconomia "D" come "Dom" - 2ª parte (artigo em italiano) 

Depois de anos chegou o dia em que estas mulheres voltaram para vender  o fruto do próprio trabalho diante dos supermercados onde por muito tempo elas tinham pedido esmolas, e dávidas às pessoas. Nos primeiros dias as pessoas ainda lhes davam esmolas, ou dinheiro e não queriam levar os lenços, até que uma dessas mulheres disse: «Se vocês não querem ficar com os lenços, nós não queremos o dinheiro».

Também isto é dom, é gratuidade, é o reconhecimento do outro, é reciprocidade. Hoje projetos de micro-crédito no mundo são autênticas experiências de dom e gratuidade mesmo não se trtando de presentes mas sim de contratos. Devemos habituar-nos a ler, a interpretar o que é o dom nas nossas sociedades complexas não como uma “coisa,” mas, como um “como”, se quisermos que este não fique confinado à filantropia e à esmola, mas que seja uma relação geradora de reciprocidade,  e de felicidade.

Esta complexa gramática do múnus, do dom-que-obriga - sobre o qual muitos autores importantes escreveram como os filósofos Derrida e Marion, e os sociólogos Caillé e Goodbout - estaria também na base da ambivalência das “communitas”, como nos mostrou Roberto Espósito. A categoria fundadora do circuito do dom não é a gratuidade, mas sim a reciprocidade, como nos mostrou, sobretudo Karl Polanyi, um autor que no séc. XIX foi um ponto de referência para a antropologia do dom.

A reciprocidade do dom não é, na sua estrutura relacional de base, substancialmente diferente do fenómeno da troca económica, que apareceu nas culturas muito mais tarde a respeito do dom ritual. Na história das culturas entre dom e mercado existiu uma diferença de níveis (de medida das equivalências, do momento do dar e do receber, das sanções previstas) mas não diferença de natureza. Com a palavra ‘dom’ encerramos o ABCDEconomia. Um obrigado a quem me seguiu nesta pequena gramática da economia civil.

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