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A outra face do G8 de Gênova

O Documento de Gênova proposto pela Economia de Comunhão durante o G8 de 2001, a convite do então diretor da Divisão de Política Social e Desenvolvimento das Nações Unidas. Um relato diferente daqueles dias

por Alberto Ferrucci

publicao na revista Città Nuova em 22/07/2021

Depois de vinte anos, a única coisa que parece vir à tona depois do G8 de Gênova é a gestão lamentável do evento, o massacre gratuito dos participantes da escola Diaz e a tortura psicológica e física no quartel de Bolzaneto. Isso tudo conseqüência de decisões imprudentes na gestão das marchas, de raiva reprimida e retaliação indiscriminada, e sobretudo de reavivamentos fascistas inaceitáveis, particularmente na cidade de Gênova, cujos filhos se sacrificaram contra o fascismo e mereceram a medalha de ouro da Resistência.

Para aqueles que, como eu, viveram ativamente aqueles dias, parece injusto que a violência e a raiva de uns poucos tenha conseguido apagar a memória de todas as ações ditadas na época pelas aspirações de mudar a sociedade mundial que aquele evento havia catalisado, reunindo nas praças as monjas dos conventos e os jovens dos centros sociais, associações civis e movimentos de inspiração social e ambiental e associações de inspiração religiosa.

Nove anos antes, Chiara Lubich, que foi contra a corrente da economia consumista que triunfou após a queda do Muro de Berlim, havia proposto a Economia de Comunhão, que sugeria que os operadores econômicos deveriam preferir um "compromisso de crescer juntos" sem excluir ninguém, em vez de lutar contra a concorrência do liberalismo, lembrando que estamos vivendo um instante de eternidade em um pequeno planeta azul, na periferia de uma das bilhões de galáxias do universo.

Para dialogar com todos no mundo da economia e do trabalho, nós do nascente Escritório Internacional de Economia e Trabalho criado por Chiara Lubich, tínhamos solicitado e obtido em 1987 do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas o status consultivo da associação Nova Humanidade, que atendia às solicitações de obras sociais em 60 nações inspiradas pelo Movimento dos Focolares. Graças a ela, foram apresentadas propostas ao ECOSOC nas áreas de finanças, trabalho e meio ambiente. Em vista do G8, o diretor da Divisão de Política Social e Desenvolvimento das Nações Unidas, John Langmore, sugeriu que a Nova Humanidade organizasse um congresso em Gênova para apresentar suas propostas aos governos do G8.

Com o patrocínio da ONU e da Cidade de Gênova, Nova Humanidade e os Jovens por um Mundo Unido envolveram oitocentos jovens dois meses antes do G8 em um congresso intitulado "Para uma Globalização Solidária, por um Mundo Unido", para o qual foram convidados acadêmicos e organizações sobre economia solidária, finanças sustentáveis e meio ambiente de vários países: Itália, Irlanda, Suíça, Holanda, Filipinas, Camarões, Canadá, Estados Unidos e Austrália.

Junto com eles, o "Documento de Gênova" foi preparado para ser apresentado aos líderes das nações do G8, contendo um pedido às multinacionais da indústria, comércio e finanças para se comprometerem voluntariamente a subscrever ações de um "Fundo Mundial da Juventude", na proporção de 0,5% de suas transações internacionais, em troca da marca registrada do fundo ser anunciada aos consumidores para favorecer seus produtos ou serviços.

Os governos deveriam ter favorecido o Fundo ao isentar suas ações de impostos, que teriam sido reembolsadas pelo valor nominal após 30 anos: administrado por um comitê de subscritores, um terço do Fundo teria sido usado para financiar alimentação, saúde e formação para os jovens do mundo, e um terço teria sido usado para empréstimos aos estados para construir escolas e hospitais. O último terço, que seria utilizado para pagar as ações após trinta anos, seria investido em ações de empresas multinacionais, com o objetivo de exercer uma influência significativa em suas assembleias de acionistas para orientar a sua política corporativa.

Durante o congresso, o Documento de Gênova, comentado pelos economistas Caselli, Gui, Bruni, Gold e Zamagni, foi entregue ao governo italiano através do Embaixador Achille Vinci Giacchi: Dionigi Tettamanzi, Cardeal de Gênova, comentou sobre ele com o título "Escuta, ó Deus, a voz dos pobres que clamam por ti" e depois ilustrou a proposta do Fundo em TV durante o programa Porta a Porta da RAI.

O Documento de Gênova foi então enviado pelo Embaixador Umberto Vattani, responsável pelo governo do G8, para comentários ao Ministério da Fazenda, cujo Diretor Geral na época era Mario Draghi: o comentário foi positivo, mas expressou a dúvida de que as multinacionais dificilmente aceitariam o convite para subscrever o fundo: na época ainda não era evidente, como agora com o surgimento dos "influenciadores", quanto vale o "voto com a carteira" dos consumidores.

Nos dias do G8, caminhando pela "zona vermelha" deserta e blindada no centro de Gênova até a cúria do bispo, entreguei o Documento de Gênova junto com o Cardeal Tettamanzi ao então Presidente Berlusconi, que estava sempre pronto para fazer, simpaticamente, uma piada sobre os genoveses.

A violência de poucos e a raiva e o medo de muitos tiveram o resultado de ofuscar, inclusive esquecendo, a boa vontade dos muitos de vinte anos atrás: Só agora parece que o que então se exigia voluntariamente das multinacionais, que entretanto só pensavam em acumular riqueza fugindo dos impostos, está se tornando uma obrigação pela vontade de nada menos que 130 nações, que no atual G20 concordaram que não mais lhes será permitido fugir dos impostos, fazendo-as retornar às comunidades das nações onde fazem seus lucros, os mesmos impostos exigidos por lei de todos os operadores econômicos.

Créditos Foto: Giampiero Aschiero

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