A certeza de que no Brasil "algo" estava prestes a acontecer...

Entrevistas com as “testemunhas” dos primeiros 20 anos da EdC

Entrevista com Vera Araujo

por Antonella Ferrucci

Vera_Araujo_ridVera Araujo, socióloga brasileira, no Movimento dos Focolares é solidariamente responsável com Nedo Pozzi pelo Diálogo com a cultura contemporânea.

Vera, como foi o lançamento da EdC para ti de teu ponto de vista de socióloga e de socióloga brasileira?

Quando Chiara foi ao Brasil em 1991, eu estava há alguns anos em Loppiano e ocupava-me da formação cultural das escolas de formação do Movimento que lá estão presentes, mas acompanhava com grande interesse todo o desenvolvimento do Movimento no Brasil e estava ao corrente dos desafios sociais cada vez mais intensos. A sua última visita ao Brasil acontecera em 1965 e então vieram muito em evidência os problemas sociais: Chiara ficou impressionada com as grandes desigualdades que tinha visto no Nordeste do Brasil, em Recife, escrevendo sobre isso páginas muito lindas e importantes em seu diário, mais tarde, publicado.

 

Após todos esses anos, de 65 a 91, o movimento tinha crescido muito também em suas implicações sociais no Brasil. Esperava-se esta vinda de Chiara ao Brasil com grande esperança e muita atenção. Mesmo eu, que estava na Itália, sentia muito isso: havia a certeza de que "algo" estava prestes a acontecer e de facto liguei a Chiara antes de sua partida para lhe dizer que, embora eu não fizesse parte do grupo que a acompanhava, estava com ela.

Depois Chiara partiu e sabemos um pouco o contexto em que, no final do mês que ela passou na Mariápolis Araceli, esta inspiração floresceu nela...

Sim, durante todo o período Chiara escreveu um diário que enviava aos membros do Movimento. Neste diário acompanhavam-se as coisas que lá estavam acontecendo, mas também se percebia a existência de uma atmosfera muito intensa e vital daqueles dias: Eu lia estes diários que iam chegando. A um certo ponto chega o diário da chamada "Bomba": Eu li este diário e os que vieram depois que só falavam disto e havia um eco extraordinário, um grande entusiasmo. Eu sinceramente não entendia o porquê, não percebia... parecia uma coisa bonita que ela tinha dito, mas não me parecia "o que eu esperava". Eu não compreendi imediatamente a importância desta novidade, permanecia obscura... E quanto mais via todo aquele eco que chegava, mais eu me sentia mal porque não entendia.

O que aconteceu depois?

Em Castelgandolfo estava a começar o encontro do Bureau Internacional de Economia e Trabalho e entretanto Chiara voltou para a Itália. Oreste Basso, nessa altura co-presidente do Movimento, veio para nos por ao corrente de tudo. Recordo que ele falou por mais de uma hora, conseguindo transmitir-nos muito bem o que fora a realidade daqueles dias, antes de nos mostrar o vídeo do discurso de Chiara na Mariápolis Araceli. Naquele momento algo de extraordinário aconteceu porque o assunto eu já o conhecia, através dos diários, mas ouvindo Chiara tive como que uma iluminação: de repente eu vi "tudo". Lembro-me que fui para casa e escrevi-lhe imediatamente uma carta em que dizia que tinha entendido todos os aspectos culturais, económicos, sociológicos e relacionais do Projeto "Economia de Comunhão", todas as implicações que deveriam ser levadas a cabo. Nos dias seguintes Chiara chamou todos os responsáveis do movimento para os por ao corrente de tudo e fui convocada também eu. Quando ela chegou àquela sala, Chiara veio logo me cumprimentar dizendo-me:  "hoje é o teu dia”, em seguida, fez um relato riquíssimo, extraordinário, lendo também os ecos (incluindo o meu). Uma semana mais tarde eu tinha que partir para a Argentina, onde eu ia apresentar uma "escola social" na Mariápolis O'Higgins, mas logo após o término desta intervenção de Chiara recebi uma sua chamada telefónica em que me disse: "Eu soube que estás de partida para a Argentina ... pois bem, vou mudar um pouco o teu programa: deves ir à Argentina, não só a O'Higgins, mas fazendo visitas a todas as zonas, e aí deves levar a novidade da Economia de Comunhão a todos". Eu apanhei um choque e tentei dizer: "Mas Chiara eu nem estava presente ..." e ela respondeu: "não importa, tu  entendeste muito bem, nós vamos dar-te todo o material e em meu nome vais levar esta realidade para que entre na Argentina". Assim, parti e fiquei um mês na Argentina, visitando todas as comunidades: O'Higgins, Rosário, Córdoba e Buenos Aires. Foi uma experiência extraordinária, porque os frutos foram os mesmos vistos no Brasil! Grande entusiasmo, nasciam empresas, muitos aderiram ... todos os aspectos da Economia de Comunhão. Desde então, especialmente nos primeiros anos, tenho falado sobre a Economia de Comunhão por todo o mundo.

Lembras-te de alguma história em particular daqueles dias, há 20 anos?

Lembro-me de uma engraçada que se passou comigo: eu não tinha escrito a Chiara enquanto ela esteve no Brasil, mas todos o faziam, porque "eu não tinha entendido". Como ela estava deixando a Mariápolis Araceli, a sua secretária, Tininha, que era uma focolarina brasileira, ligou-me lá do Brasil para Loppiano e disse-me: "mas tu és mesmo uma inconsciente! Chiara acaba de sair, dentro do carro que cruzou a Cidadela/Mariápolis e saudava as pessoas; ela me viu, me chamou para se despedir e me disse:. Tininha, eu não recebi NADA da Vera". Eu fiquei desfeita, porque com todo o correio que recebeu nesses dias, Chiara tinha notado que eu não tinha escrito nada! Isto ainda mais aumentou a minha ansiedade! Depois, aconteceu tudo o que já disse antes...

É tua a expressão "cultura do dar" que tem caracterizado muito a EdC nestes 20 anos. Um ‘dar’, porém, que não tem um sentido único, porque também é um ‘receber’, na reciprocidade. Como combinar estes dois aspectos na tua opinião?

Este elemento novo do "dar", que devia entrar na economia, era o ultrapassar a cultura do egoísmo, da acumulação, levando a uma cultura de relacionamento que entrava no circuito da produção de bens, a comunhão, a partilha. O dar adquiria uma valência de tipo não só espiritual mas cultural e até económico. Era fazer entrar uma nova mentalidade que colocava em prática uma partilha dentro da própria estrutura da economia. Era um dar que não provinha de uma "ordem superior", mas sim um reconhecimento de que o outro tinha um “direito à Comunhão"; era um por em atividade uma "circulação": - o dar tornava-se recíproco: receber era também dar porque era "dar a sua própria necessidade". O dar bens económicos ou bens relacionais tornava-se uma partilha em um único circuito relacional em que as pessoas se encontravam com o mesmo "nível de dignidade". Nestes anos foram aprofundadas todas as caraterísticas do "dar", a gratuidade, a simplicidade, a alegria, a alteridade [Nt: colocar-se no lugar do outro], o altruísmo .. Todos os aspectos de um modo de ser que depois se tornava numa ação: o ‘homo donator’, o homem que sabe doar, sabe dar, sabe partilhar. Este ainda é um grande tema a ser aprofundado e mostrado em todas as suas perspectivas.

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