"Se o lucro é a única finalidade, tudo se torna meio"

"Se o lucro é a única finalidade, tudo se torna meio", afirma o economista Luigino Bruni

por Daniel Fassa e Andréa Moreira

publicado em cidadenova.org.br

120712_Recife_FCAP_1“A Economia de Comunhão é uma crítica ao capitalismo, se o entendemos como um sistema cujo objetivo principal é a maximização dos lucros. Se o lucro é a única finalidade, tudo se torna meio. A EdC é um modelo de economia de mercado que tem como objetivo principal um novo projeto socioeconômico”. Essa foi uma as reflexões apresentadas pelo economista italiano Luigino Bruni durante um seminário na Faculdade de Ciências da Administração da Universidade de Pernambuco (FCAP), realizado ontem, (12/07), no Recife.

Vindo ao Brasil em função da Escola Latino-americana de Economia de Comunhão, que ocorre até 15 de julho, no Centro Mariápolis de Igarassu (a cerca de 44 km da capital pernambucana), Bruni tem participado de diversas conferências na região.Com o título “Novas relações econômicas a partir da perspectiva da Comunhão”, o seminário de ontem reuniu representantes da iniciativa privada, instituições governamentais e acadêmicas. Em sua exposição, Bruni explicou que a EdC não é apenas um projeto de combate à pobreza, mas de estebelecimento de novas relações econômicas. “A pobreza é um relacionamento que não funciona”, explicou, aludindo ao contraste entre os suntuosos prédios e as favelas de São Paulo, que inspiraram Chiara Lubich na criação da Economia de Comunhão.

Por isso, segundo ele, é necessário não apenas tirar as pessoas da pobreza por meio de doações, mas assegurar meios para que elas cresçam em dignidade em todos os aspectos de suas vidas, entre os quais está o trabalho: “Eu gostaria que dezenas de milhares de empresas em todo o mundo incluíssem os pobres. Quando giro o mundo, vejo muita gente pedindo esmolas ou fazendo ‘falsos’ trabalhos. Enquanto você não trabalhar de verdade, será sempre um pobre”, afirmou Bruni, quando questionado sobre suas expectativas para o futuro da EdC.

Ele disse esperar também que haja uma superação do pensamento único no mundo da economia, que cada país encontre sua vocação econômica e que o mercado se direcione para a formação e desenvolvimento, especialmente dos jovens. “Um jovem que não estuda será sempre um escravo”, argumentou.

Fazendo uma breve retrospectiva histórica, o economista explicou que a passagem do feudalismo para o capitalismo marcou a transição de um sistema servil, em que a riqueza permanecia exclusivamente 120712_Recife_FCAP_2nas mãos da elite, para uma estrutura socioeconômica democrática, em que, ainda que de maneira desigual, a produção de riqueza trazia benefícios também aos mais pobres. Daí o surgimento do estado de bem-estar social que marcou a história europeia a partir do século XIX.

No entanto, prosseguiu Bruni, o capialismo financeiro está produzindo, especialmente nos últimos 30 anos, um retrocesso, porque os recursos se concentram com uma minoria e não se revertem em bem-estar para todos. “A especulação financeira é um jogo de soma zero, como dizem os economistas”, afirmou.

Por isso, para Bruni, é escandaloso o modo como a Europa está gerindo a crise econômica dos últimos anos, porque está colocando um peso excessivo sobre alguns países. “A Grécia estava em crise antes de 2008. Não é só culpa deles, embora eles também sejam responsáveis. Falta um espírito europeu, uma comunidade que assuma as responsabilidades coletivamente”, afirmou o economista. Isso se deve, segundo ele, às feridas que permanecem abertas desde a II Guerra Mundial. A solução seria resgatar o espírito que animou o surgimento da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, embrião da atual União Europeia, que estabeleceu o compartilhamento dos dois recursos pelos quais os países litigavam. “Hoje deveríamos colocar em comum as finanças”, argumentou o economista.

Por fim, Bruni afirmou que, diferentemente da cultura anglo-saxã, a brasileira e latino-americana são mais abertas a um modelo “comunitário” de mercado, em que as empresas contribuam efetivamente para a construção do bem comum e para o estabelecimento de relações fraternas, sem, com isso, perder em eficiência. “Não por acaso a EdC nasceu no Brasil. Não por acaso este país pode ser um farol para o mundo”, concluiu.

Casos de êxito

Depois da palestra, foram apresentados dois casos de empresas que atuam com os princípios da EdC e tem obtido êxito. A Campo Fertile, por exemplo, é uma delicatessen localizada em Igarassu-PE que iniciou suas atividades em uma comunidade de baixa renda há 16 anos e, desde então, vem crescendo uma média de30% ao ano. Além disso, já conquistou prêmios regionais e nacionais como o MPE Brasil, nos quesitos Inovação e Responsabilidade Social. Para Marcos Gugel, proprietário do empreendimento, as empresas têm uma obrigação maior do que pagar impostos: devem contribuir com o desenvolvimento da sociedade e de seus funcionários, ao mesmo tempo em que geram lucro e competitividade.

“Nós temos o compromisso com o cristianismo e com a sociedade. Aprendemos que o amor gera o amor. E os empresários precisam saber que podem mudar o mundo através de suas empresas, desenvolvendo o bem comum de maneira ética”, declarou. Sua esposa, Inês, condivide com ele a direção da empresa que, como bióloga, vem procurando alinhar dentro das normas da vigilância sanitária, dos princípios de sustentabilidade e do respeito ao meio ambiente, além de desenvolver uma política de valorização dos recursos humanos. Para o casal, um dos diferenciais da EdC é promover a igualdade entre os empresários e seus colaboradores. “Essa proposta só tem sentido se formos, de fato, iguais”, reforçou.

O empresário curitibano Glaison Citadin foi um dos representantes da EdC no Fórum do Empreendedor Social, na Rio+20, e também apresentou a Dominus, sua empresa, do ramo de automação. Ele enfatizou o papel da reciprocidade nos relacionamentos coma a cadeia produtiva, os clientes e colaboradores. E explicou que isso significa cultivar relacionamentos que vão muito além do interesse, equivalentes aos relacionamentos de amizade. No ambiente interno, a preocupação do empresário é preservar a harmonia e o bem-estar dos colabores. “Muitas vezes, faço isso em prejuízo próprio”, afirmou Glaison e complementou: “Quando estou na minha empresa, estou num ambiente de relação; Chiara nos ensinou o princípio da reciprocidade em todos os ambientes que frequentamos”, afirmou.

EdC hoje

Há no mundo 800 empresas da EdC, 167 no Brasil, 22 no Nordeste e cinco em Pernambuco. Por definição, os empresários da EdC se comprometem com uma gestão justa e honesta de seus empreendimentos e livremente decidem realizar a comunhão, dividindo os lucros em três partes destinadas às seguintes finalidades: desenvolver projetos sociais, contribuir para a difusão desta nova cultura econômica e desenvolver sempre melhor a própria empresa de modo que ela continue lucrativa.

No projeto, as pessoas em necessidade também têm um papel fundamental, na medida em que se abrem para uma transformação que as permite solucionar situações de pobreza e exclusão. Os articuladores da EdC exercem sua participação de forma voluntária, acreditando que o envolvimento, o compromisso e a gratuidade são formas importantes e vitais de se consolidar uma rede de solidariedade e esperança.

Público e impressões

O seminário no Recife reuniu empresários, professores, estudantes que tiveram a oportunidade de dialogar com o professor Luigino Bruni durante cerca de uma hora. E levaram a impressão de um projeto ousado, revolucionário a ser conhecido e replicado, como afirmou um jovem participante. Na plateia, eram cerca de mais de 120 pessoas que, na abertura dos trabalhos, puderam participar de um momento singelo: a apresentação das crianças e adolescentes da Academia de Artes, do Instituto Roberto Sousa.

Além dessa entidade civil, apoiaram a iniciativa o Instituto Ação Empresarial pela Cidadania, o Instituto Solidariedade, o Instituto Chaira Lubich de Inclusão e Comunhão (de Sergipe), o Banco do Nordeste, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de Pernambuco, da Associação Caruaruense de Ensino Superior (ASCES), e o Instituto Humanitas (da Universidade Católica de Pernambuco, que conferiu o título de Doutor Honoris Causa em Economia à Chiara, pelo projeto da EdC, em 1998). Além do Pólo Empresarial Ginetta, um condomínio empresarial que fica em Igarassu e reúne três empresas da EdC, com espaço para, pelo menos outras sete, segundo a Diretoria. O repórter da Rádio Jornal/CBN, Mario Neto, conduziu os trabalhos do seminário. Para saber mais sobre a EdC, acesse http://www.edc-online.org.

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