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ECONOMIA DE COMUNHÃO Em 29 de maio o projeto Economia de Comunhão completou 20 anos. A Jornada comemorativa realizada em São Paulo, no Memorial da América Latina, com representantes de 37 países, representou um novo lançamento e uma retomada do projeto, que continua tendo a força de uma profecia em ato

Uma nova página foi aberta

por Fernanda Pompermayer

publicado em Cidade Nova, 07/2011

As mensagens que chegam de diversas partes do mundo confirmam: a comemoração dos 20 anos da Economia de Comunhão (EdC) foi uma festa. Festa no sentido mais amplo e mais profundo da palavra: manifestação de júbilo, satisfação, alegria pela existência de um projeto da magnitude deste, lançado por Chiara Lubich, no Brasil, em maio de 1991. Mas o evento foi também um momento de retomada do ardor e do impulso do projeto, que nasceu para contribuir para a superação da pobreza.

O local da Jornada não poderia ter sido mais emblemático: o Memorial da América Latina, em São Paulo, um centro cultural que foi idealizado e construído como espaço de união entre povos e culturas. O auditório Simón Bolívar, lotado com cerca de 1.700 pessoas, também estava cheio de simbologia. Bolívar foi o herói latino-americano que lutou e alcançou a soberania para seis nações do nosso continente, todas elas ali representadas na Jornada.

O logo do evento “EdC: 1991 – 2001 – 2031” revelava o verdadeiro objetivo da comemoração: olhar para trás – 20 anos desde quando a semente da Economia de Comunhão foi plantada – para avaliar o percurso feito; e olhar para a frente, para 2031, a fim de definir como o projeto deverá ser daqui a 20 anos e o que precisa ser feito para alcançar esse objetivo.

Esperança e compromisso

Toda a Jornada foi marcada pelo clima de esperança, que tinha o seu fundamento em testemunhos concretos de que a EdC traz consigo a força dos grandes projetos, capazes de dar um novo significado para a economia, transformando-a em instrumento para o bem da pessoa e de toda a sociedade. A série de experiências de empresários, empresas, trabalhadores, pessoas ajudadas e estudiosos dos frutos da EdC, relatados durante os quatro dias que antecederam a Jornada, na Assembleia Internacional da EdC, que se realizou na Mariápolis Ginetta (Vargem Grande Paulista), onde nasceu o projeto, justificava o clima de esperança e de entusiasmo verificado em São Paulo.

Um entusiasmo que, no entanto, não prescinde das dificuldades que a EdC enfrenta hoje num contexto de uma concorrência exacerbada e desigual entre fortes grupos econômicos. De fato, um dos pioneiros da EdC, cuja empresa é uma das tantas que podem fechar por falta de condições de participar do jogo da globalização econômica, declarou: “Não sei qual será o futuro da nossa empresa. Pode até ser que tenhamos de fechá-la. Mas a experiência (da EdC) foi feita: ela existiu, foi verdadeira e deu certo”.

Na sua mensagem aos participantes da Jornada, Maria Emmaus Voce, presidente do Movimento dos Focolares, deixou claro em que se apoia essa certeza. Escreveu: “Creio que a Economia de Comunhão, embora seja hoje apenas uma pequena ‘semente de mostarda’, tem a capacidade de transformar o cerne da vida econômica não só das empresas, mas também das famílias, das instituições financeiras, das políticas econômicas. Em síntese, acredito que contém a capacidade de transformar profundamente todo o modo de agir do sistema econômico”.

O futuro

Mas, depois de 20 anos, o projeto continua despertando entusiasmo também em importantes estudiosos de economia. O professor Stefano Zamagni – docente de economia na Universidade de Bolonha, Itália, e de economia internacional na Johns Hopkins University, (EUA) – manifestou a sua confiança no projeto, atribuindo à EdC o mérito de incluir o princípio da fraternidade como fim da economia. Ele, que é um dos maiores estudiosos da economia civil, declarou durante a Jornada do dia 29: “Se hoje, na ciência e na práxis econômica, se pode falar de conceitos como dom, gratuidade, reciprocidade, o mérito é de Chiara e do seu projeto Economia de Comunhão”.

A principal novidade trazida pela EdC, na opinião do professor, é a constatação de que eficiência e solidariedade são importantes, mas não são suficientes. “Para manter a ordem social é indispensável acrescentar o princípio da fraternidade”, explicou ele. Para Zamagni, a EdC hoje é uma árvore. “Uma árvore que deve crescer e dar frutos”.

Numa síntese sobre as conquistas e os desafios da EdC, Luigino Bruni, outro estudioso do projeto, professor de economia da Universidade Milão-Bicocca, indicou os pontos principais que deverão nortear os próximos 20 anos. Segundo ele, o atual sistema econômico e financeiro deve evoluir para algo novo – e as várias crises, da ambiental à financeira, demonstram isso – e a EdC pode contribuir para essa mudança.

Mas para isso, conforme ressaltou o estudioso, a Economia de Comunhão precisa continuar fiel aos seus objetivos, procurando investir parte de seu lucro na inclusão social e consequente promoção humana de quem vive à margem da economia, no desenvolvimento das empresas – a fim de que se tornem competitivas – e na promoção de uma cultura de comunhão, que deve nortear a ação de todos os agentes econômicos. Desse modo, segundo ele, a EdC continuará transformando lenta, mas decididamente, a economia a partir de seu interior, como uma revolução silenciosa, mas irrefreável.

Os jovens

Outra razão para o entusiasmo e a esperança, segundo diversas pessoas presentes na Jornada, foi a grande presença de jovens de diversos países: estudantes, economistas, trabalhadores – e até pequenos empresários – que desejam dar a própria contribuição, com idealismos e projetos, para a difusão e a consolidação do projeto EdC. Ficou por conta deles a elaboração da “Carta de São Paulo”, como ficou conhecido o documento conclusivo da Jornada.

Um grupo desses jovens – eram 16, representando países dos cinco continentes – foram protagonistas de um dos momentos mais emocionantes da Jornada: uma espécie de síntese dos desafios e das esperanças para os próximos 20 anos do projeto EdC.

Alternando-se, no enorme palco do auditório Simón Bolívar, eles proclamaram em oito línguas o que esperam do mundo e da Economia de Comunhão.

Com o entusiasmo que caracteriza as novas gerações declararam: “Que a economia de 2031 seja de comunhão, para nós e para todos!” E foram além: “Não teremos paz enquanto cada pessoa que vive na terra não tiver o necessário para uma vida digna, para levar a vida que ama, para desenvolver as suas potencialidades e os seus talentos, para alimentar os seus sonhos pessoais e coletivos”.

Pelo silêncio no auditório e o clima de solenidade com os quais era escutada, a mensagem dos jovens parecia ser um eco do sentimento de todos os presentes: confiança no futuro e compromisso para trabalhar por uma economia mais fraterna. Uma mensagem com força universal, dirigida a todos os homens e mulheres de boa-vontade.

Nós, jovens presentes aqui em São Paulo, em maio de 2011, com raízes em 1991, mas interessados e responsáveis pela economia do mundo em 2031, acreditamos que se essas nossas convicções, esperanças, compromissos e desejos forem partilhados por muitos homens e mulheres de todos os continentes, e se o nosso comportamento no dia a dia for coerente, a aspiração a uma economia não só eficiente e justa, como também fraterna, não será mera utopia”. Com essas palavras dos jovens, fechou-se uma página de história para abrir-se uma nova.



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