pubblicazioni stampa Cidade Nova Lucro ou bem comum?

Um e outro. Mas é preciso mudar o modelo econômico e social

Lucro ou bem comum?

por Luigino Bruni

publicado em Cidade Nova, 01/2011

O debate público dos últimos anos sobre o trabalho, o desemprego e a crise econômica criou uma excelente oportunidade para refletir mais profundamente sobre a natureza da empresa e do lucro. A forma que a economia de mercado assumiu nos últimos dois séculos, o capitalismo, deve evoluir, transformando-se em outra coisa. Algo que salve todo o patrimônio de civilização e de liberdade que esse sistema econômico contém, mas que, ao mesmo tempo, consinta que 8 bilhões de pessoas possam desenvolver a própria humanidade.

Uma das coisas mais graves da crise financeira dos últimos dois anos foi a vulgaridade (não encontro uma palavra melhor para exprimir o que aconteceu) com a qual bancos e agências de seguro - salvos com dinheiro público - recomeçaram, a partir dos primeiros meses de 2009, a distribuir salários e bônus milionários aos seus diretores.

Não se falou muito sobre isso. O fato é que não temos a coragem de colocar em discussão o sistema capitalista e nos limitamos a falar de economia ética, empresa responsável, sem fins lucrativos e filantropia, fenômenos funcionais e necessários ao sistema econômico atual.

 

Se pensarmos na economia de mercado - sem entrar na discussão sobre a natureza dos lucros das especulações - podemos afirmar que o lucro é a parte de valor agregado da atividade de uma empresa que é destinada aos proprietários. Portanto, o lucro não é o total do valor agregado, mas somente uma parte deste. Dou um exemplo: a empresa "A" produz automóveis, transformando matérias-primas num produto final chamado carro por um custo fictício (só para nos entendermos) de R$ 10,00. Se acrescentarmos a esse custo as despesas com a mão de obra (R$ 8,00), os honorários financeiros e as amortizações (R$ 3,00), o lucro bruto (do qual ainda não foi retirado o montante para o pagamento dos impostos) de um carro vendido a R$ 30,00 seria R$ 9,00. Se, depois, a empresa paga R$ 4,00 de impostos, o lucro bruto se torna R$ 5,00

 

A este ponto surgem duas perguntas. A primeira: onde nasce - e de que depende - esse lucro? A história do pensamento econômico é também uma história das diversas teorias sobre a natureza do lucro. Joseph Schumpeter, por exemplo, defendia há cem anos que o lucro é o "prêmio da inovação" do empresário; é, portanto, a remuneração da capacidade inovadora do empresário. Meio século antes, Karl Marx havia afirmado que o lucro não era outra coisa senão um furto aos trabalhadores feito pelos capitalistas. Porque, segundo ele, a única fonte verdadeira do valor agregado é o trabalho humano, em particular o dos trabalhadores.

Sabemos, hoje, que muitas coisas estão incluídas no valor agregado, entre as quais a criatividade do empresário, o trabalho humano, as instituições da sociedade civil, a cultura de um povo, a qualidade dos relacionamentos familiares nos quais as crianças crescem nos seus primeiros 6 anos de vida. Portanto, o valor agregado não é somente o papel criativo dos detentores dos meios de produção da empresa, como também constitui um algo a mais que diz respeito à vida de toda a coletividade.

Todavia, uma coisa é certa: se a empresa "A" vende o carro a R$ 30,00 e o lucro é de R$ 5,00, numa hipotética empresa sem fins lucrativos (ou seja, com lucro zero) os carros custariam R$ 25,00 em vez de R$ 30,00. Em outras palavras, os lucros das empresas são uma forma de taxa sobre os bens, paga pelos cidadãos e que, por isso, reduz o bem-estar coletivo da população. No entanto, na maioria das vezes, as empresas sem fins lucrativos criaram mais prejuízos do que soluções para os problemas que queriam resolver. Como foi o caso das experiências coletivistas do século XX.

Essas experiências não funcionaram por muitas razões. Uma destas razões é o fato de que, quando se tiram R$ 5,00 dos lucros de uma empresa para socializá-los, quem a mantém em pé (Estado ou iniciativa privada) não se empenha mais na inovação desta e no próprio trabalho. Assim, a riqueza - e não apenas a econômica - da nação diminui. Por outro lado, a crise que estamos vivendo ensina que uma economia baseada apenas nos lucros e na especulação também é insustentável.

Então, o que fazer? À luz do que foi dito antes, o que acontece hoje na chamada economia civil e social e, em particular, na Economia de Comunhão, pode ser lido de duas formas. A primeira leitura, que pode ser definida como minimalista e conservadora, vê a economia civil e a social como os tapa-buracos do sistema capitalista. Ou seja, a empresa normal não consegue cuidar daquelas pessoas que ficam fora do sistema econômico, fazendo com que seja necessário que haja outro sujeito para realizar a função que a família e a Igreja cumpriam no passado. É o caso dos 2% de empresas sem fins lucrativos, que, porém, deixam de fora as outras 98%  de empresas lucrativas.

Mas pode-se fazer também outra leitura sobre a economia civil: imaginar um sistema econômico no qual o valor agregado (econômico e social) seja distribuído entre muitos, sem que empresários e trabalhadores deixem de empenhar-se pela falta de incentivos.

O desafio de uma nova economia de mercado será manter empresários (indivíduos, mas também comunidades) motivados por "razões superiores ao lucro".

A última fase do capitalismo (que podemos chamar de financeiro-individualista) nasceu de um pessimismo antropológico, baseado na ideia de que os seres humanos são oportunistas e autointeressados demais para poderem empenhar-se por motivos "altos" (como o bem comum). Mas não podemos permitir que essa "derrota antropológica" diga a última palavra sobre a vida em comum. Temos o dever ético de deixar uma visão positiva sobre o mundo e sobre o homem para quem virá depois de nós.

 

Mas para que tudo isso se torne uma realidade, faz-se necessário um novo humanismo, uma nova estação educativa, "homens novos" formados para a fraternidade. Homens capazes de empenhar-se e de trabalhar não somente pelo lucro, mas também para fazer da sua atividade uma obra de bem comum. Se isso acontecer, a nova economia de mercado, na qual estão surgindo novos grandes protagonistas - a África, por exemplo - poderá ajudar o mercado a ser um belo lugar no qual habitar, viver e amar.
   
  
* O autor é professor de economia e especialista em economia civil




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