por Teresa Ganzon
A assembleia era composta por mais de 200 pessoas entre licenciados, professores, representantes de organizações não governamentais, políticos. Luigino Bruni deu início à sua intervenção com quatro premissas:
1. Devido à globalização, a pobreza deixou de ser uma questão “nacional” mas diz agora respeito a todo o mundo.
2. Um tema importante no debate sobre a pobreza é aquele da educação para o trabalho, e para todos os trabalhos, não só aqueles intelectuais. Também o trabalho manual tem a sua dignidade e uma das mensagens que o Cristianismo pode dar é que o trabalho é uma parte importante para a construção da pessoa.
3. A atual situação requer uma redefinição das relações entre Estado, Governo, Economia e Sociedade Civil, porque já não é sustentável deixar ao Estado a exclusividade da tarefa da redistribuição da riqueza. Existe hoje a necessidade de empresários civis que se ocupem diretamente de problemáticas sociais, não se limitando unicamente a contribuir através dos impostos que lhes competem.
4. A quarta premissa é que a atual crise financeira demonstrou que há qualquer coisa do sistema que não funcionou. E é um “qualquer coisa” que, se não for corrigido, levará a sociedade a um segundo e fatal “enfarte”. É necessária uma mudança dos estilos de vida, se se quer evitar a repetição da crise.
Bruni descreveu a globalização com as novas oportunidades que oferece, e os seus possíveis riscos: “transformar o mundo num lugar onde a única forma de relação humana é uma transacção económica, onde tudo se torna mercadoria”. São duas as possíveis direcções que a economia de mercado pode tomar. “A primeira é construir uma aldeia global onde, como em todas as aldeias, são vários os princípios que estão em jogo. Existem, naturalmente, as trocas económicas, mas existem também a redistribuição da riqueza e a dádiva. A segunda é transformar o mundo num supermercado global, onde tudo se torna mercadoria e deixa de existir espaço para as relações genuínas e autênticas.”
Neste contexto, o maior desafio da EdC, seja do ponto de vista teórico que prático está em “demonstrar que aqui e agora, mesmo nas Filipinas, é possível construir uma comunidade empresarial orientada para construir relações autênticas, onde a reciprocidade tem o direito de existir, mesmo no âmbito económico”. Por isso, “a Economia de Comunhão é um sinal de esperança concreta neste momento de crise que, como acontece com todas as crises, pode ser também um momento de oportunidade”.
Seguidamente Luigino Bruni descreveu a Economia de Comunhão e os três pilares do projeto: a empresa, a cultura e a pobreza.
Descrevendo a empresa e o empresário, distinguiu dois tipos diferentes de empresários. O primeiro é o especulador, cujo principal objetivo é conduzir a empresa à maximização do lucro, e para quem o objeto do business é secundário. Pelo contrário, para o empresário “verdadeiro”, a atividade da empresa não é, de modo nenhum, secundária. Esta tem um valor intrínseco e, para além da obtenção do lucro, interpela a sua paixão e inteligência. Criatividade e inovação são o fruto da “inteligência”, dos “olhos novos” que caracterizam o empresário verdadeiro.
A propósito da natureza do lucro, a doutrina social da Igreja ensina que é preciso ter em atenção o modo através do qual a riqueza é redistribuída. Na opinião de Bruni existe qualquer coisa que não funciona naquela forma de agir da nossa sociedade capitalista que dá a maior parte do valor acrescentado aos accionistas e não aos trabalhadores da empresa. O hábito de pagar aos managers milhares de vezes mais do que os trabalhadores levam para casa é algo que contrasta com uma abordagem cristã da economia.
Pelo contrário é evidente que, na Economia de comunhão, os lucros da empresa não vão exclusivamente para os accionistas. Para operar numa economia de mercado, também a empresa EdC deve ser eficiente e criar valor acrescentado para a empresa, mas nunca em prejuízo das pessoas, dos trabalhadores, porque esses contribuem para o próprio lucro com o seu trabalho. É a forma como são redistribuídos os lucros que faz a diferença relativamente à abordagem tipicamente capitalista.
A propósito da pobreza, Bruni esclareceu que ela é sempre o resultado de relacionamentos errados. Não é um status individual, como as características físicas com as quais cada um de nós nasce, é uma questão social. Como tal, para encontrar uma solução para a pobreza é preciso olhar não só para os indivíduos, mas também para as relações dentro da comunidade. E ainda: “a pobreza não é só uma questão de dinheiro, mas é também uma questão de privação de “capabilities”, oportunidades, liberdade, direitos. Por isso, se se quer lutar contra a pobreza é preciso investir em educação, oportunidades, política e direitos.”
Se a pobreza é fundamentalmente exclusão de oportunidades, política, educação, do trabalho, combater a “pobreza negativa” (que é aquela imposta e consequência das relações erradas, em contraposição com a “pobreza escolhida” proposta no Evangelho) significa incluir os pobres no processo produtivo, nas empresas, e não limitar-se a dar uma ajuda de tipo assistencialista. “É esta a mensagem verdadeiramente importante da civilização... sem trabalho não há forma de se libertar da armadilha da pobreza”.
“Se alguém me perguntasse: o que é que te parece que se possa fazer para combater a pobreza nos países caracterizados por problemas sociais, a minha resposta assentaria em três pontos, ou seja, formação, formação, formação. Sem formação não existe futuro, especialmente para os jovens. Formação de alta qualidade. Ensino básico, secundário, universitário e por aí adiante. Mas não somente formação intelectual, também educar para o “fazer”.
Nas conclusões, Luigino Bruni lançou um desafio ao público que, na sua maioria, provinha da comunidade académica: ensinar economia e responsabilidade social de forma diferente, mais focalizada na compreensão de um “caminho comunitário”, do que numa abordagem filosófica.
Dirigindo-se, por fim, a todos os filipinos presentes concluiu dizendo: “Espero que a vossa sociedade e economia filipina, tão criativa, possa encontrar o próprio caminho em direcção a uma economia de mercado que salve as raízes cristãs e comunitárias, tão evidentes e fortes na vossa sociedade e, possa assim crescer e inovar-se na atual economia e sociedade globalizada. Neste desafio, grande e apaixonante, talvez a pequena experiência da Economia de Comunhão possa oferecer um exemplo”.
Le site officiel de l'ÉdeC est en ligne:
economie-de-communion.fr
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