Estou a fazer um doutoramento em Management [Gestão], na Universidade de Nantes; estou inserida numa equipa de pesquisa interdisciplinar que estuda o impacto da multiplicação dos novos instrumentos de gestão sobre o sofrimento e o bem-estar dos trabalhadores. Desenvolvemos pesquisas com uma abordagem qualitativa do tipo “action-research”, isto é, uma pesquisa-consultoria, a pedido dos dirigentes da empresa estudada.Assim a gestão, com todos os seus instrumentos, excluiu uma outra dimensão vital da gestão, que é a atenção à animação da equipa de trabalho e ao apoio dos seus esforços. A pairar sobre tudo isso, há sentimentos de desencorajamento, de desconfiança e, em consequência, a adesão de muitos trabalhadores a um sindicato muito reivindicativo e propenso às greves.
O setor da saúde caracteriza-se pela multiplicidade de normas e por uma forte pressão por parte das entidades públicas para a redução de custos. Isto significa que só quem é capaz de apresentar números muito rigorosos sobre a sua actividade está em posição de negociar novos recursos.
Mas a multiplicação das normas e dos procedimentos dos sistemas de controlo e de prestação de contas, tem um impacto negativo sobre os trabalhadores que geralmente, nestes ambientes, são levados por lógicas vocacionais, que os impelem a dar-se sem medida: já não há espaço para a gratuidade, para o dom.
Uma das propostas feitas pela nossa equipa de pesquisa foi a de valorizar no interior das empresas “espaços de partilha e confronto”, isto é, lugares e momentos onde se podem discutir problemas, propostas, necessidades, para encontrar soluções em conjunto. Constatámos que onde faltam estas “áreas” ou, pior ainda, onde esta interação é impedida, as equipas encontram dificuldades, com consequências evidentes na qualidade de vida dos empregados.
Uma condição essencial para que haja um verdadeiro diálogo é que, entre todos, haja a máxima confiança. Esta pareceu-nos ser ao mesmo tempo a condição essencial, mas também um produto do diálogo. Nas empresas estudadas por nós, perante a profunda desconfiança que se foi criando a todos os níveis e que destrói as relações, parece que os gestores não sabem como fazer.
A confiança e o diálogo são de facto bens de um valor inestimável para as empresas – e os gestores apercebem-se quando eles diminuem, porque as consequências têm custos elevadíssimos. Precisamente porque são bens relacionais, quem perdeu de vista ou deixou morrer a relação, deixa de saber reconstrui-los.
E não é por falta de vontade, mas sim porque os gestores são como “aspirados” para o alto e para fora. Dado que os acionistas fazem exigências cada vez mais fortes e requerem cada vez mais prestação de contas, a principal preocupação dos dirigentes é apresentar aqueles números que exprimem o trabalho realizado e o valor criado. Mas nesta corrida desenfreada perde-se de vista a relação.
Os gestores estão muito interessados nos que estão no vértice da empresa e assim perdem de vista a gestão para dentro e para baixo, constringindo os trabalhadores a utilizar instrumentos cada vez mais complexos que bem depressa, porém, tornam o trabalho mais difícil. A esta “doença” chamámos nós “gestionite”, que é a doença da perda da relação, da gratuidade.
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