Revista da Nova Bolsa - 14 - 2012

Investir, consumir e ser feliz!

por Fábio Gallo Garcia*

publicado em Revista da Nova Bolsa edição nº 14 - 2012

Logo_RevistaNovaBolsaA relação entre renda e felicidade é antiga e controversa porque sempre vem à mente a pergunta: Afinal, o que é felicidade? Não é intenção fazer aqui um tratado sobre a felicidade, mas estabelecer a sua relação com o consumo e o investimento.
O progresso médico, científico, econômico-financeiro e o conforto material permitiram que vivêssemos mais e melhor.
Isso nos tornou mais felizes? A busca da resposta pode ocorrer por vários caminhos. Ciências como filosofia, teologia, sociologia, antropologia, medicina, entre outras, sempre buscaram respostas e apresentam a felicidade de acordo com sua própria visão.

Alguns autores e estudiosos admitem que a felicidade depende de:

  • 50%: causas genéticas;
  • 10% a 20%: circunstâncias da vida como idade, saúde, renda, ocupação, origem étnica, religião etc.;
  • 30% a 40%: como a pessoa pensa e age – e isso depende de nós.

O professor Eduardo Giannetti da Fonseca percorre o pensar filosófico e diz: “Discutir a felicidade significa refletir sobre o que é importante na vida. Significa ponderar os méritos relativos de diferentes caminhos e pôr em relevo a extensão de hiato que nos separa, individual e coletivamente, da melhor vida ao nosso alcance”.
Ele segue longa tradição de discussão sobre a felicidade que começa com os filósofos gregos. Particularmente, em Aristóteles (384 aC), na Ética de Nicômaco que trata da eudemonia. O que para alguns filósofos era o supremo bem, para Aristóteles significava a essência do homem e a atividade que, por sua essência, lhe é adequada. Como homem é um ser racional, o pensamento é a expressão de sua essência, o meio para a realização de seu fim, de seu bem supremo.
O pensar filosófico sobre a felicidade é encontrado, também, em Epicuro (307 aC), fundador do epicurismo, que em sua carta a Meneceu, conhecida como “A Carta sobre a Felicidade”, escreveu, em seu início: “é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo teremos, e, sem ela, tudo faremos para alcançá-la. Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz”.
O pensar sobre a felicidade continua com o utilitarismo de Bentham, Stuart Mill, Locke, Hobbes, que, na tradição do pensamento  aristotélico, traz que o fim da conduta do homem é a felicidade. Hobbes, em particular, trata como axioma ético fundamental a conduta
correta: é a que promove o nosso próprio bem-estar e os códigos morais dominantes em uma sociedade só podem ser justificados se servem ao bem-estar daqueles que os observam.
Neste pensar, podemos chegar a Alasdair MacIntyre, que cita o homem virtuoso não como aquele que faz o bem por medo de ser punido por fazer o mal, mas sim, aquele que faz o bem, pelo bem em si.
No caminho desses pensamentos podemos admitir que o comportamento financeiro das pessoas seja uma possível janela para essa reflexão.
Daí outra importante pergunta deve ser feita:

TER MAIOR RENDA, INVESTIR E CONSUMIR TRAZEM FELICIDADE?

A resposta para esta questão é muito difícil e depende de cada pessoa. Mas, alguns estudos e pesquisas nos dão respostas que levam a pontos comuns.
Uma pesquisa que pode ser citada é a publicada pela revista Consumer Reports que, em 2011, procurou descobrir, com mais de 24 mil pessoas acima de 55 anos, qual era o grau de satisfação com suas finanças e suas vidas. O ponto comum encontrado foi que a paz mental tinha muito pouco a ver com altos salários e padrão de vida. As respostas referiam-se a aproveitar o bom estado de saúde, ter hobbies, poupar, ter amigos e estar em algum emprego que trouxesse algum tipo de plano de benefícios para a aposentadoria. A mesma pesquisa indicou que mesmo aqueles com menor grau de poupança estavam altamente satisfeitos com a sua aposentadoria. O importante foi terem se programado para viver com a renda que possuem.
Outro texto em que encontramos muitas pistas sobre a relação entre renda e felicidade é o artigo “Sobre o consumo e a felicidade”, de Luigino Bruni. O autor cita algumas fortes pistas sobre a relação entre renda e (in) felicidade. Uma das respostas é que o aumento de renda pode ser acompanhado de uma diminuição da felicidade e isso está ligado à queda do consumo de bens relacionais: “Muitos, talvez a maioria, dos prazeres da vida não têm preço, não estão à venda e, assim, não fazem parte do mercado” Outra resposta encontrada é que a diminuição da felicidade vem da redução da capacidade de dar, do altruísmo.
Bruni
conclui, ainda, no artigo em referência: “Além disso, consumir mais não significa necessariamente consumir mais mercadorias. Devemos alargar a categoria 28 de bem econômico para incluir aí relações, encontros pessoais. Podemos consumir mais consumindo melhor, consumindo diversamente (pensemos no desafio do consumo crítico), dedicando mais tempo aos outros, não para vender e comprar também a amizade ou um sorriso, mas, pelo menos, para reconhecê-los como bens e não destruí-los; e talvez para criar as condições, culturais e institucionais, necessárias à reprodução de bens que estão se tornando cada vez mais escassos”.

AFINAL, O QUE SIGNIFICA INVESTIR?

Investimos para manter a nossa riqueza. Aplicamos recursos como reserva de valor. E isso somente nos fará felizes se estiver de acordo com o nosso próprio fim, que é, em suma, a nossa própria finalidade ética e assim promova o nosso bem-estar. Com base neste pensamento podemos admitir que não é investindo em qualquer coisa, obter lucro a qualquer preço que nos fará felizes.
Quantos de nós investimos em ações, por exemplo, observando somente a relação risco e retorno e ficamos satisfeitos com os resultados positivos e rentabilidades obtidas sem, no entanto, perguntar como os lucros das empresas que estamos investindo são obtidos?
Tomemos o exemplo de alguém que invista em ações de uma empresa que obtenha lucros por meio de trabalho escravo, mão de obra infantil, gere muita poluição, use de atos ilegais ou de corrupção. Essa pessoa seria feliz em seus investimentos? Ela estaria cumprindo
o seu fim ético?
Acredito que a resposta a estas perguntas seja não. Investir em algo que traga danos às pessoas, ao meio ambiente,
à sociedade contraria a nossa conduta moral e nos traz infelicidade. Por isso, hoje temos tanto movimentos em prol da transparência, da governança corporativa e da sustentabilidade. Tanto é que a BM&FBOVESPA mantém dois índices relacionados à sustentabilidade e
três à governança corporativa, além de seus índices amplos e setoriais.
Individualmente, se faz necessário questionarmos como as empresas em que investimos obtêm lucro. Quais são as atividades por elas desenvolvidas. Qual o grau de poluição gerado?
Coletivamente, temos outros questionamentos importantes. O PIB global é da ordem de US$55 trilhões. Mas o volume anual de negócios com ativos financeiros com elevado grau de risco supera US$690 trilhões, doze vezes mais. Embora esses riscos, grosso modo, sejam uma fração do total de negócios, eles são elevados e nem sempre são decorrência de operações de hedge, sua finalidade última. Vivemos em um mundo de muitas contradições. Pois somos mais capazes de lidar com tecnologias sofisticas que sermos mais bem preparados em relação a nossa maturidade política e sensibilidade humana para lidar com questões como a fome no mundo.
Ainda hoje, sentimos os efeitos da crise econômica mundial, que não foi simplesmente uma nova crise, mas sim, faz parte de uma crise estrutural que tem a nefasta consequência de negar a bilhões de pessoas acesso adequado a comida, saúde e educação. Segundo dados da FAO, desde o início da década de 1970, a fome no mundo vinha diminuindo, mas, nos últimos anos, esse declínio sofreu reversão. Em 2009, a fome atingiu mais de um bilhão pessoas, recorde histórico.
Em bom tempo a humanidade dá-se conta de que o desenvolvimento de uma nação não significa somente acumulação de riqueza. Mas depende do bem-estar das pessoas e da busca da felicidade. O indivíduo não se realiza por ter alta renda ou acumulação de bens, mas sua realização ocorre como um todo, em todas as facetas de sua vida.
Refletindo sobre o Brasil, vemos um país que surpreendente a muitos, tornando-se a sexta nação do mundo em termos de PIB. Mas, estamos na 84ª posição no IDH e ainda há mais de 16 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, ou 8,5% da população. Daí surge a pergunta: nós somos felizes?
Não temos ainda claramente a resposta, mas a certeza de que devemos buscá-la. Medir a felicidade é dispor de um índice de progresso e desenvolvimento de nosso povo.
Questionarmo-nos individual e coletivamente sobre se o nosso comportamento financeiro é essencial se quisermos entender o que somos e se somos felizes. Em A Ética a Nicômaco, Aristóteles nos dá algumas pistas marcantes sobre a felicidade:

  • “A felicidade tem que ser um bem perfeito e bastante por si.”
  • “O conceito da felicidade tem que ser tirado do conceito da atividade humana em sua perfeição.”
  • “Por isso, antes se põe como condição de felicidade uma vida perfeita e realizada sob todos os aspectos.”

 

* FABIO GALLO GARCIA É PROFESSOR DE FINANÇAS DA PUC-SP E FGV-EAESP, E COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS SOBRE A FELICIDADE E O COMPORTAMENTO FINANCEIRO DA FGV-EAESP.

 

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