Um desafio cultural

CRISE FINANCEIRA O problema do capitalismo atual está na progressiva transformação dos bancos especuladores

Um desafio cultural

Luigino Bruni, para o “L’Osservatore Romano”

Com a falência do banco Washington Mutual, que se soma aos outros bancos e fundos norte-americanos, que também quebraram recentemente, ficou claro que estamos diante da crise financeira mais grave desde 1929. 

O pedido feito ao Congresso de aprovar a liberação de 700 bilhões de dólares para cancelar os títulos podres dos bancos falidos, demonstra a seriedade da crise. O montante sugerido por Henry Paulson, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, equivale a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos.
Estamos chegando ao fim do capitalismo? Talvez não, mas é provável que estejamos diante do fim de um tipo de capitalismo financeiro e especulativo – que, nas duas últimas décadas, cresceu muito e de forma inadequada – do qual a crise atual é só uma (e não a única) expressão eloqüente. Uma crise cujas causas têm raízes profundas não somente no sistema financeiro, mas também nos estilos de vida e de consumo do Ocidente.
A primeira causa para a crise do mercado financeiro é o fato de o banco e a financeira afastarem-se completamente dos objetivos para os quais nasceram. As instituições bancárias e financeiras são indispensáveis na economia moderna. O banco foi, e continua sendo, uma correia de transmissão social entre as gerações (a economia do adulto pode ser um investimento para o jovem) e entre as famílias e empresários. Os bancos e as financeiras são, portanto, instituições essenciais para o bem comum. De fato, os primeiros bancos populares foram os “Montes de Piedade” dos franciscanos, criados no século XIII, como um meio para liberar os pobres do laço da usura no pagamento das dívidas que eram obrigados a assumirem.
A doença do capitalismo contemporâneo é a progressiva transformação dos bancos e de instituições financeiras em especuladores. Para o especulador, a única coisa importante é a maximização do lucro. A atividade que ele desenvolve não tem qualquer valor intrínseco, é apenas um meio para enriquecer os acionistas.
O economista Muhammad Yunus, Nobel da Paz, fundador do Grameen Bank (Banco dos Pobres) – uma das inovações financeiras mais interessantes do século passado – afirmou diversas vezes que o acesso ao crédito na economia de mercado é um direito fundamental do homem. Isso porque, segundo ele, sem terem esse direito garantido, as pessoas não conseguem realizar os próprios projetos e sair das muitas armadilhas da miséria. Nessa perspectiva, o banco especulador deveria ser a exceção e não a regra da economia de mercado, na medida em que os produtos que esse tipo de banco administra são sempre de alto risco. Nesse sentido é importante notar que a crise atual não foi desencadeada pelos bancos comerciais, mas pelos bancos de investimentos, entidades fortemente especulativas.
Pode parecer paradoxal, mas a natureza do banco é mais próxima da de uma empresa sem fins lucrativos do que da natureza de uma instituição especulativa. A empresa sem fins lucrativos (como algumas instituições culturais ou filantrópicas) é uma instituição cujo compromisso é com a eficiência e a economicidade, e não com o lucro, mas com os ganhos de muitos sujeitos. Não foi por acaso que, desde os Montes de Piedade até os bancos cooperativos, o banco é visto também como empresa sem fim lucrativo, porque eram muitos os interesses que devia satisfazer.
A lição que a série de falências de instituições finan-ceiras – e ainda mais o plano de socorro a essas institui---ções – vem dando é que a instituição bancária tem um grande valor social e não pode ser deixada a mercê do jogo perigoso da maximização dos lucros dos acionistas, porque ela deve satisfazer uma grande pluralidade de interesses.
Nos últimos anos, muitos economistas falam da necessidade de uma nova regulamentação dos mercados financeiros que reconheça a responsabilidade social dos bancos. Uma responsabilidade que, nas últimas décadas, foi sendo esquecida, apesar do crescimento exponencial  dos instrumentos de medição do risco e de agências de rating.
Mas, em minha opinião, existe também outro fator para a crise atual mais ligado ao estilo de vida das pessoas. Refiro-me a uma espécie de “patologia do consumo” das famílias que foi instituído pelo capitalismo norte-americano, mas que está se estendendo para todo o Ocidente opulento. O excessivo endividamento das famílias estadunidenses criou um terreno frágil, que desabou sob o peso da crise dos empréstimos subprime. Com efeito, os empréstimos para a aquisição da casa própria é só um aro de uma cadeia de dívidas, que é o resultado de uma cultura que privilegia o consumo “aqui e agora”, e que apaga a dimensão ética da economia.
O consumo é cada vez mais imposto por um sistema econômico e financeiro que – com a cumplicidade da mídia – induz as famílias a endividarem-se para além das suas reais possibilidades de pagamento da dívida. A instituição financeira que empresta muito a pessoas erradas não é menos grosseiro do que o banco que empresta muito pouco a pessoas certas.
Portanto, a crise atual pode ser também uma grande- oportunidade para que se faça uma profunda reflexão sobre os estilos de vida insustentáveis criados pelo atual capitalismo financeiro. Isso não significa que precisamos pensar numa economia sem bancos e sem operações financeiras. O importante é pensarmos num sistema bancário e num sistema financeiro que não sejam confiados apenas a especuladores. Uma boa sociedade não se constrói sem bancos e sem financeiras, mas com um bom banco e um bom sistema financeiro.
O sistema financeiro da Europa, por exemplo, há séculos faz nascerem instituições bancárias segundo motivações ideais e sociais, que foram responsáveis pela “humanização” da economia moderna. É necessário que também hoje surjam empresários e banqueiros que sejam animados por objetivos que transcendam o lucro. Sem esses novos atores sociais não poderá haver democracia nem econômica nem política. Portanto, o desafio do sistema financeiro atual é, sobretudo, cultural e antropológico e para ser alcançado exige o empenho de todos e de cada um, dentro e fora dos mercados.

* O autor é professor de Economia na Universidade de Milão Bicocca (IT)

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