Diário de Pernambuco - 13/08/2012

A hora de fazer a partilha do lucro

por Juliana Cavalcanti

publicado em Diário de Pernambuco dia 13/08/2012


Logo_Diario_PernambucoPensar em empresas que compartilham dois terços dos lucros em benefício de uma sociedade menos desigual talvez seja uma utopia quando se fala nas grandes corporações, mas já é uma prática adotada por mais de mil empreendimentos em todo o mundo. Exercitar uma nova forma de dividir o lucro e atuar na sociedade é apenas um dos aspectos da chamada Economia da Comunhão (EDC). Criada em 1991 pela professora italiana Chiara Lubich (uma das fundadoras do movimento cristão Focolares), a EDC vem aos poucos conquistando novos adeptos. Na Itália, algumas cooperativas que adotaram o sistema contam com mais de mil trabalhadores. No Brasil para conhecer iniciativas da EDC e também para discutir o atual momento econômico vivido pelo mundo, o economista italiano Luigino Bruni conheceu empresas no município de Igarassu que atuam com base na economia da comunhão e refletiu sobre a crise que afeta principalmente a Europa e os Estados Unidos, colocando em xeque o sistema capitalista.

"Não se pode crescer se existem excluídos"


O que é a economia da comunhão?
É um movimento de empreendedores que nasceu em 1991, no Brasil, para chamar as empresas a enfrentarem a pobreza. A proposta é que coloquem o lucro em comum, dividido em três partes: uma permanece na empresa, para desenvolvê-la; outra é usada em projetos para pessoas pobres; e a terceira, para projetos de dimensão cultural para jovens. O projeto reúne quase mil empresas no mundo. Quando olhamos para empresas que fazem o social, existe o socialmente responsável, enquadrado no capitalismo (visa o lucro, mas dedica uma parte pequena para ações sociais; entre 1% e 2%) e o modelo é feito pelas cooperativas, pequenas empresas, ONGs (trabalham com pessoas em situação de desvantagem). Não é tradicional, mas tem foco cooperativo. A EDC são empresas tradicionais (têm empregados, capitais, produzem bens e serviços), mas colocam o lucro em comunhão. E não são 2% ou 3%, mas 2/3. Uma empresa que se volta para o social.

Que espaço a EDC tem no mundo de hoje? É uma saída para o momento de crise?
O capitalismo é uma coisa enorme e a economia da comunhão é algo muito pequeno. Fazer esse confronto é um risco. Quem sabe daqui a 20 anos o capitalismo muda graças à contribuição da EDC. Sabemos que as verdadeiras mudanças na história foram provocadas por uma minoria profética. Certamente somos minoria, esperamos ser também proféticos.

Vemos hoje grandes corporações transferindo a produção para países em desenvolvimento, em busca de mão de obra barata. Esses empregos certamente não voltarão e os salários continuam baixos. Como senhor vê este cenário?
Esse movimento tem uma lógica própria. Se olharmos o mundo daqui a alguns anos, este ciclo vai parar. Quando acabar a China, a Índia, a África, será preciso encontrar outro sistema de produção. A EDC é uma proposta sustentável de povos que se encontram. Não um forte e um fraco, mas iguais.

Sempre se fala do Brasil como o futuro, que daqui vão sair soluções, mas muitos modelos têm se repetido. Que papel cabe ao Brasil no mundo hoje?
Existe muita esperança porque se imagina encontrar um capitalismo diferente do chinês, do norte-americano. Mais comunitário, mais relacionado, mais alegre. O capitalismo do Norte, onde chegou, destruiu as comunidades tradicionais, os laços com os contratos. Chega o mercado, mas também mais solidão, mais tristeza, mais fragmentação. Acontece na Europa e na América do Norte. Parece que o Brasil até agora conseguiu dar vida a uma economia de mercado com mais espaço para o comunitário. O temor é que acabe imitando o modelo norte-americano. Se isso ocorrer, o Brasil e o mundo perderão uma grande oportunidade. Tem riqueza, desenvolvimento e crescimento, mas não tem algo a mais. O Brasil pode demonstrar que existe outra via, como um laboratório.

Durante muito tempo no Brasil se falou que o PIB cresceria, mas nem todos iriam acompanhar. Nos últimos anos foram implantadas políticas com um olhar diferente. Como o Sr. analisa a relação do PIB com a qualidade da vida do cidadão?
A política de inclusão social é muito importante. O mercado não pode crescer se tem na base um grupo de excluídos. Não é sustentável. O que aconteceu na Europa nos anos 1950 e 1960? Uma massa de agricultores e servos foi trabalhar nas empresas, para a escola, aprendeu a escrever. Houve uma aliança entre democracia e mercado. Um país que deixa fora 30% da população não cresce economicamente. Não é que faltem consumidores, mas falta capital humano. É melhor crescer mais devagar, mas todos; do que poucos, rapidamente. Houve este debate na Europa em 1800, essencial para o que ocorreu em seguida no continente. Hoje está aumentando a desigualdade. Quando a medição acontece apenas com indicadores econômicos, acaba destruindo aspectos do patrimônio civil, social, ambiental. Eu me preocupo com o entusiasmo porque o PIB está crescendo. Deveríamos medir o que acontece com o meio ambiente, as relações entre as pessoas, a comunidade. O Brasil poderia apontar alternativas. Mas seria preocupante se o governo dissesse: o PIB caiu, mas a população está mais feliz. O emprego é fundamental. Um país que não trabalha nunca vai poder ser rico.

Uma corrente de pesquisadores acreditava que a tecnologia faria as pessoas trabalharem menos, sobrando tempo livre de qualidade. Entretanto, vemos o contrário: as pessoas têm trabalhado mais.
O que se verifica hoje é um efeito ampulheta, no qual as pessoas muito qualificadas e as pessoas pouco qualificadas (dos extremos) trabalham muito. E a parte do meio, muito pequena, trabalha pouco. Uma parte dos funcionários públicos estaria no meio, enquanto gerentes de empresas, professores, médicos, jornalistas trabalhariam muitíssimo, juntamente com os operários. O trabalho está aumentando. Ao mesmo tempo acontece um índice de desocupação involuntária; gente que gostaria de trabalhar e não consegue porque não tem qualificação. A tecnologia tem sido muito excludente. Talvez tenha muito ócio, mas é muito pouco criativo. Quando há desemprego, até a festa fica em crise, porque se você não trabalha, o domingo acaba sendo pior do que os outros dias. A perda de postos de trabalho tem que ser observada mais do que o índice de inflação.

Qual é o futuro da União Europeia e do Mercosul? O modelo de blocos econômicos é algo ultrapassado?
A Europa vive uma transição. Falta um ideal. Tem o livro de Weber (A ética protestante e o espírito do capitalismo); tem o de Montesquieu (O espírito das leis). É preciso ideal que vá além dos interesses econômicos, cria os povos, a civilização. Não se entende hoje qual é o espírito da Europa além do interesse econômico. O povo envelheceu, perdeu o entusiasmo. Quando estive na África, me impressionou não apenas a pobreza, mas ver em Nairóbi jovens estudando embaixo de postes porque suas casas não tinham energia elétrica. É a vontade do futuro. Quando um povo perde o desejo de viver, você pode dar tudo, mas não há fome de futuro. Alguns autores dizem que a Europa está destinada ao declínio. Espero que haja uma saída; pode ser uma grande dor, como a 2ª Guerra Mundial (fez surgir o desejo de renascer), ou outro evento que não sei qual seria.

No caso do Mercosul?
Olhem para a Europa e não cometam os mesmos erros. Não façam uma moeda única sem uma economia alinhada. Se não existe unidade econômica, permanecem as taxas de câmbio invisíveis. O mercado sabe que o título alemão não é igual ao italiano e isso cria problema; não pode desvalorizar a moeda para vender mais. Quando o Euro nasceu dizia-se: não podemos germanizar a Europa, mas queremos europeizar a Alemanha. Na verdade, a unidade monetária favoreceu os mais fortes e enfraqueceu os mais fracos: Irlanda, Grécia, Espanha e Itália. Se fizerem isso no Mercosul, os fortes serão mais fortes e os frágeis, mais frágeis. Para o Brasil talvez fique bem, mas para o conjunto, não. É um desafio.

Tradução: Maria Clézia Pinto de Santana e Nando Chiappetta

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