No estopim de uma mudança

ECONOMIA Governos buscam encontrar soluções próprias para enfrentar os problemas causados pela crise financeira internacional e juntos iniciam a busca de alternativas que protejam a economia global de uma nova crise

No estopim de uma mudança

por Luciana Collet

publicado em Cidade Nova, 01/2009

Uma das ações adotadas em boa parte dos governos europeus e estadunidense para evitar uma recessão mais profunda é a liberação, por parte dos bancos centrais, de recursos para ajudar as famílias endividadas. Uma iniciativa inédita da parte das maiores economias do mundo. Nos Estados Unidos, onde a crise começou e, portanto, onde os efeitos são mais graves e evidentes, o Federal Reserve (o banco central do país) deve gastar US$ 200 bilhões para quitar a dívida das hipotecas das famílias com os bancos. Assim, passará a ser o financiador das casas e poderá negociar com as famílias o pagamento das dívidas a prazos e juros que caibam no bolso delas.

“Pela primeira vez é dirigido um tratamento aos desesperados, que são os que mais sofrem nos momentos de crise”, afirmou Leonardo Trevisan, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Essa medida pode não ter impacto para livrar o país da crise, mas certamente é um alento na dor que causa para as pessoas”, afirmou.

Claramente, o objetivo também é o de diminuir a incerteza que faria com que as pessoas passassem a consumir o estritamente necessário e, ao represar o dinheiro, fortalecessem ainda mais a crise. Mas é também uma lição aprendida com a crise dos anos 30.

Alguém pode argumentar que os recursos usados para que o Fed pague as hipotecas, em última análise, vão parar nos bancos. São, em boa parte, os mesmos bancos que emprestaram recursos a famílias que não tinham como comprovar a renda. Além disso, tanto o governo dos Estados Unidos, quanto o de outros países liberaram recursos diretamente para salvar esses bancos. Não seria melhor auxiliar diretamente os pobres, que afinal são sempre os primeiros a sofrerem as consequências, e sempre em uma intensidade muito maior?

A cartilha econômica diz que não é bem assim. Marcos Barbieri, economista do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica: “Se uma empresa quebra, decreta falência, quem sofre não é o banqueiro, o empresário, os diretores das empresas, mas o operário dessa empresa, bem como as empresas e os funcionários daquelas que prestam serviço à que quebrou, o comércio que serve aos funcionários dessas empresas”. “É necessário que os governos exijam contrapartidas, garantias de que não haverá cortes significativos de postos de trabalho, que as empresas vão investir mais em eficiência energética, em preservação do meio ambiente etc.”, acrescenta ele.

BRASIL
Além de disponibilizar recursos para ajudar instituições financeiras em dificuldade, o governo brasileiro disponibilizou crédito a produtores rurais, exportadores e pequenas e médias empresas, ampliou o volume de moeda em circulação, de modo a estimular o financiamento mais barato, anunciou o corte de gastos públicos, mas garantiu o investimento governamental em obras de infra-estrutura, conforme previsto no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). No entanto, economistas avaliam que também seria necessário um movimento mais expressivo com relação à taxa de juros.

“O governo brasileiro tem feito a lição de casa tradicional para conter a crise, como fez em 2001, mas ainda não conseguiu perceber o que tem sido feito na Europa e nos Estados Unidos no sentido de ajudar as famílias”, disse Trevisan, argumentando que o endividamento da população com a compra de carros e casas, como se viu nos últimos anos, também deve gerar incerteza e represamento de gastos no consumidor brasileiro, o que afetará – e em certa medida já está afetando – seja o emprego formal, seja o informal.

ACORDO INTERNACIONAL

Em 2009, além de dar continuidade às políticas nacionais já anunciadas, será necessário definir medidas que propiciem uma maior regulação do sistema financeiro internacional, de forma a limitar operações altamente especulativas e evitar o colapso do sistema de crédito em proporções como se observou até agora.

Um primeiro passo nesse sentido já foi dado. Em novembro de 2008, os chefes de Estado de vinte países desenvolvidos e em desenvolvimento, que formam o chamado G-20, encontraram-se em Washington (EUA), para discutir um plano de ação a fim de reformular as bases do sistema financeiro e evitar uma nova crise mundial. Na conclusão do encontro, o grupo lançou uma série de recomendações para enfrentar os problemas atuais, como a criação de colegiados das autoridades financeiras nacionais e internacionais para que possam compartilhar informações; o monitoramento das principais instituições financeiras transnacionais; o alinhamento das regras contábeis, além do aumento da supervisão de agências de risco (que pontuam os papéis e títulos comercializados no mercado financeiro) e da transparência dos mercados financeiros.

A importância da reunião, conforme avaliação do presidente Lula, é a mudança na lógica das decisões políticas internacionais, uma vez que deu voz ativa aos países emergentes e em desenvolvimento como Brasil, China, Índia, Rússia, Argentina e México, ao lado dos países ricos, que até já tinham um grupo de discussão privilegiado, o chamado G-8, das maiores economias mundiais.

Barbieri ressaltou a necessidade de agilidade para tomar decisões mais profundas que permitam uma maior regulação financeira e coordenação internacional. “A dinâmica econômica atual exige rapidez na tomada de decisões”. E ele justifica: “Os Estados Unidos erraram ao deixarem quebrar um banco; demoraram para tomar uma atitude, e isso gerou uma crise sistêmica, afetando outros segmentos da economia.

Além da regulação financeira, os países deverão enfrentar juntos o desafio de encontrar um equilíbrio comercial. E dado que há anos se tenta um acordo na chamada Rodada Doha, visando diminuir as barreiras comerciais entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, a tarefa pode ser árdua. No entanto, Trevisan avaliou que um acordo comercial internacional teria melhor resultado neste momento se já tivesse sido implementado. “Acordos de comércio internacional demoram anos para serem efetivados”, disse ele.

Já Barbieri é de outra opinião: “Se a negociação não avançar, pode ficar acertado pelo menos manter as coisas como estão atualmente, o perigo é as economias se fecharem e agravarem ainda mais a crise”, disse. Em tempos de crise global como a que passamos, os países tendem a se proteger de uma eventual invasão de produtos importados mais baratos ou ainda a estimular as exportações como forma de contrabalançar a economia interna mais fraca.
De fato, na reunião de Washington, o G-20 indicou a necessidade de evitar novas barreiras comerciais e os países presentes se comprometeram em não ampliarem barreiras externas e a não realizar estímulos às exportações além do permitido pela Organização Mundial do Comércio, pelo menos ao longo de 2009.

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