O desenvolvimento compartilhado é o nome novo da paz

Se a oferta de bens se move em nível global, também a demanda deve ter uma dimensão global, caso queiramos orientar esse capitalismo de uma forma diferente e mais equitativa.

por Daniel Fassa

publicado em Cidade Nova, 03/2015

Disegno Persone CDNProfessor de Economia Política da Universidade Lumsa de Roma e do Instituto Universitário Sophia, o italiano Luigino Bruni é especialista em Economia de Comunhão, Economia Civil, Economia Social, reciprocidade, felicidade na economia e bens relacionais. Nesta entrevista, ele comenta o estudo da Oxfam International.

A solução para as crescentes desigualdades no mundo virão das elites econômicas? Qual é o papel das organizações da sociedade civil e dos cidadãos?

Acredito pouco nas elites, que são dominadas por poderes financeiros cada vez mais fortes. Em vez disso, acredito muito na potencialidade dos cidadãos, no poder do consumo consciente. Na Itália, por exemplo, o movimento Slotmob, contra jogos de azar, começou um ano e meio atrás, por iniciativa de seis pessoas bem motivadas e organizadas nas mídias sociais e nas suas bases territoriais. Até agora fizemos 80 eventos em toda a Itália e estamos para conquistar, nos próximos dias, uma nova lei no Parlamento que reverte completamente as normas dos jogos de azar em benefício dos cidadãos. Se nos organizarmos, temos um poder imenso para orientar a conduta dos grandes lobbies, mas precisamos de mais consciência e mais organização. Imagine o poder que milhões de cidadãos teriam em todo o mundo, que, a partir das bases, premiam ou punem, com suas compras, os produtos das grandes multinacionais. É verdade que, com o capitalismo global, aumentou a força dos grandes lobbies, mas também é verdade que aumentou o poder dos cidadãos. Porém, é necessário que eles estejam coordenados e organizados: se a oferta de bens se move em nível global, também a demanda deve ter uma dimensão global, caso queiramos orientar esse capitalismo de uma forma diferente e mais equitativa.

O Fórum Econômico Mundial foi criado pelo economista Klaus Schwab com base no stakeholder principle, conceito segundo o qual a gestão de uma empresa não deve servir apenas aos seus acionistas, mas também aos interesses de todas as partes envolvidas, incluindo empregados, clientes, fornecedores, governo e a sociedade civil. Qual a distância entre esses princípios e a realidade das empresas que anualmente participam do Fórum?

Ainda estamos muito longe dos objetivos declarados pelo fundador, porque por enquanto Davos é um clube de ricos que falam entre eles e aos políticos. No ano passado propus ao Vaticano que organizássemos uma "Davos dos pobres" e realizamos em julho um primeiro evento, que reuniu 80 representantes de associações, para dar voz também aos pobres.
Faço votos de que essa iniciativa tenha continuidade e ganhe maior peso nos próximos anos. 

As soluções propostas no estudo da Oxfam são possíveis sem a intervenção dos Estados e a regulação do direito internacional? Como viabilizar essas soluções se os Estados
são fortemente influenciados pelo poder econômico que devem regular?

Sem os Estados não é possível mudar radicalmente essa situação. Pensemos no escândalo dos paraísos fiscais, tolerados e desejados pela comunidade econômica mundial, que produzem purgatórios e infernos fiscais para todos aqueles que não têm milhões de euros para se permitirem advogados que são autênticos "santos" desses paraísos. Como cidadãos devemos agir de imediato e não esperar os tempos infinitos dos Estados com seus interesses.

O estudo mostra que, nos EUA, o 1% mais rico ficou com 95% por cento do crescimento pós-crise financeira de 2008, que foi debelada com recursos do Estado. Como o senhor vê essa realidade do ponto de vista ético e quais podem ser as suas consequências sociais e políticas?

Vejo como algo ruim. Não podemos ignorar o fato de que esse retorno do terrorismo, que preocupa muito a Europa e o Oriente Médio, tem também razões econômicas. Estudos demonstram que a desigualdade aumenta a violência e os confrontos étnicos. Se queremos evitar micro e macro confrontos de civilizações, devemos mudar as regras do jogo. Somente colocando os países mais pobres (penso no continente africano em particular) em condições de desenvolver-se economicamente e, portanto, socialmente,
será possível uma paz duradoura. O desenvolvimento compartilhado é o nome novo da paz.

No Brasil, embora tenha ocorrido uma diminuição da pobreza e das desigualdades nas últimas décadas, ainda há uma grande distância entre ricos e pobres e enfrentamos grandes problemas nos serviços públicos básicos, como saúde e educação. Quais devem ser os próximos passos?

A riqueza das pessoas é uma soma de bens privados (renda) e bens públicos (entre os quais serviços, assistência, educação etc.). A Europa hoje tem 7% da população mundial, 20% do PIB mundial e 40% da despesa mundial com bem-estar social. Esses 40% foram essenciais também para o PIB, a riqueza econômica. Hoje o Brasil deve continuar os investimentos nos bens públicos, saúde e sobretudo educação, e não deve permitir que seja colonizado por um pensamento único global de matriz anglo-saxã, que quer nos convencer de que o individualismo é o paraíso e que as comunidades são o inferno. O Brasil pode se tornar um farol para os povos se for capaz de fazer que sua vocação comunitária e relacional torne-se um caminho alternativo à economia de mercado.

Qual sua visão de futuro?

Estou convencido de que o capitalismo financeiro do século 21 representa uma involução do Ocidente e do mundo. O dinheiro está recriando um "neofeudalismo", onde os ricos compram tudo, quase que até a morte. Em um mundo onde a moeda compra tudo, o dinheiro se torna tudo e ficamos dispostos a vender até nós mesmos e os nossos filhos para tê-lo. Há uma necessidade extrema de um grande projeto cultural, a partir das escolas, das igrejas, dos movimentos, que produza o quanto antes uma redução da economia na nossa vida. E que, no espaço liberado, coloquemos mais encontros, mais beleza, mais poesia, mais comunidade, um relacionamento menos predatório com o meio ambiente e com os pobres. Mas é necessário começar imediatamente, aqui e agora.

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