A aurora da meia noite

Logo Geremia Crop 150Nesta categoria encontram-se todos os editoriais de Luigino Bruni da série "A aurora da meia-noite", comentando o livro de Jeremias, publicados em Avvenire a partir de 23 de abril de 2017

 

Para além do deserto de palavras traídas

A aurora da meia-noite / 16 – Reconhecer e enriquecer a família profética da terra

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 06/08/2017

170806 Geremia 16 rid«Uma vez, Rabbi Mosche Kobryn disse: ‘Vejo que todas as palavras que eu disse não encontraram nem sequer um que as tenha escutado com o coração. As palavras que saem do coração vão, na verdade, para o coração; mas, se não encontram nenhum, então, ao homem que as disse, Deus concede a graça de elas não ficarem a vaguear, mas que regressem todas ao coração donde saíram’… Algum tempo depois da sua morte, um amigo disse: ‘Se tivesse tido a quem falar, ainda viveria’»

Martin Buber, Storie e leggende chassidiche   [Histórias e lendas chassídicas]

Embora cada profeta tenha a sua personalidade única e o seu nome próprio, a profecia é uma experiência coletiva. Forma uma comunidade, uma tradição e, quem chega, continua o mesmo percurso, combate as mesmas batalhas, dá novas palavras à mesma voz. Cada profeta verdadeiro é gerado pelos profetas que o precederam e alimenta os profetas que virão depois dele. Esta cadeia geradora espiritual é a raiz da fidelidade à palavra porque cada profeta sabe que está a escrever um capítulo de um livro que será completado por outros/as e, se àquele capítulo, faltam palavras, ou se tem palavras parciais ou emendadas, quem continuar a escrita encontrará entre mãos um material adulterado, não terá à disposição palavras necessárias para escrever as próprias, e o final será mais pobre e errado.

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O cântico das vozes diferentes

A aurora da meia-noite / 15 – A grandeza de Deus livra-nos de contar apenas os nossos sonhos

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 30/07/2017

170730 Geremia 15 rid

«Da imagem tensa / espreito o instante / com iminência de espera - / e não espero ninguém: na sombra acendida / espio o sino / que, impercetível difunde / um pólen sonoro – / e não espero ninguém:
entre quatro muros / pasmados de espaço / mais que um deserto / não espero ninguém:
mas deve vir / virá, se resisto, / a florescer não visto, / virá de improviso, /quando menos o sinto:
virá quase perdão / de quanto faz morrer, / virá a dar-me a certeza / do seu e meu tesouro,
virá como restauro / das minhas e suas penas. / virá, talvez já venha / o seu sussurro»

Clemente Rebora, Dall’imagine tesa   [Da imagem tensa]

A falsa profecia, em boa-fé, talvez seja a mais abundante debaixo do sol e entre as mais perigosas. Sempre existiram e ainda existem falsos profetas de má-fé, que não são voz de nenhuma voz e sabem-no muito bem. Mas também há falsos profetas, em boa-fé, que não são voz de nenhuma voz e não o sabem, e confundem a “voz de Deus” com as próprias fantasias, emoções e pensamentos. Os falsos profetas não são todos rufias e impostores; entre eles, existem também pessoas autoconvencidas de serem profetas sem o ser.

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O dom novo do Deus fiel

A aurora da meia-noite / 14 – Só um Pai, nunca indiferente, oferece misericórdia

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 23/07/2017

170723 Geremia 14 rid«Irmão ateu, nobremente pensativo, à procura de um Deus que eu não sei dar-te, atravessamos, juntos, o deserto. De deserto em deserto, vamos para lá da floresta dos fiéis, livres e nus, para o nu Ser e, lá, onde a palavra morre, tenha fim o nosso caminho»

Davide Maria Turoldo, Canti Ultimi

A vida poderia ser contada como a história das suas crises. A Bíblia está cheia destas histórias, mas não nos damos conta delas porque, nos textos bíblicos, procuramos verdades, palavras religiosas, consolações. E, assim, perdemos as páginas maiores da Bíblia, que se abrem quando conseguimos chegar aos homens e mulheres que estão por detrás das palavras de YHWH, àqueles seres humanos completos que as pronunciaram. A palavra bíblica não nos muda enquanto não nos deixamos tocar na carne pelos seus homens e pelas suas mulheres, enquanto não lhes dermos permissão de entrar nos lugares mais íntimos da nossa alma e de entrar em nós como pessoas concretas, com um nome e uma história, com as suas feridas, as dúvidas e as maldições. Demasiadas vezes, a Bíblia salva pouco ou nada porque permitimos que nos toque pouco ou nada. Por vezes, um personagem bíblico consegue forçar a entrada, infiltrar-se no buraco da casa que ficou aberto, por engano. O personagem torna-se pessoa mais real e concreta que os nossos amigos e que os nossos filhos. Baralha-nos a decoração dos interiores e dos quartos de dormir. Depois, se quem entra é Jeremias, a casa fica em grande confusão e, talvez, no caos completo, possamos voltar pobres das coisas e de Deus e, finalmente, sentir pairar o espírito que, nas casas com as portas fechadas e nos templos guardados e protegidos, não consegue soprar. Há demasiadas pessoas que permanecem fora do horizonte espiritual do mundo porque, quando vêm ao nosso encontro, entram numa casa com as janelas fechadas e demasiado cheia de coisas bem ordenadas, com um oxigénio insuficiente para poder respirar.

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Verdade até ao miolo da vida

A aurora da meia-noite / 13 – Como Deus alimenta e muda para sempre a nossa existência

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 16/07/2017

170716 Geremia13 rid«A minha alma refugia-se no Antigo Testamento e em Shakespeare. Lá, pelo menos, sente-se alguma coisa: lá, são homens que falam. Lá, odeia-se!; lá, ama-se, mata-se o inimigo, amaldiçoam-se os descendentes, por todas as gerações; lá, peca-se.»

Soren Kierkegaard, citado em Scipio Slataper, Ibsen

O livro de Jeremias marca um novo estádio da consciência humana, um salto no processo de humanização, uma verdadeira inovação antropológica e espiritual. Todo o seu livro, sobretudo as suas confissões. E, se lhe permitirmos entrar no íntimo da nossa consciência e estivermos dispostos a suportar os seus altos custos, aquela antiga inovação pode ainda realizar-se, aqui e agora.

Desde o primeiro capítulo do seu livro, Jeremias alternou o conteúdo da sua missão profética com as suas confissões íntimas, revelando-nos a sua alma, as suas esperanças, as suas angústias. Agora, no auge do seu diário interior, chegamos aos capítulos 19 e 20, onde os factos narrados e a sua poesia atingem um pico absoluto.

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Mas Deus espera-nos no torno

A aurora da meia-noite / 12 – A insuficiência da prudência e a teologia das mãos

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 09/07/2017

Lavorazione ceramica 01 rid«O trabalho físico constitui um contacto específico com a beleza do mundo e um contacto de uma plenitude tal que nada de equivalente se pode encontrar noutro lugar».

Simone Weil, Attesa di Dio   [Espera de Deus]

Para compreender a profecia e os profetas bíblicos precisamos de uma laicidade que já não temos. De facto, não há nada mais leigo que um profeta, porque, mesmo quando fala de Deus, diz, sempre e só, vida, história, lágrimas, esperanças, quotidiano, trabalho. Os discursos dos profetas eram acerca de homens e mulheres que, em redor, todos podiam e deviam compreender sem serem especialistas em teologia. É esta a sua laicidade, se verdadeiramente queremos usar um termo que seria, para eles, totalmente incompreensível porque, o que para nós é leigo, era, para eles, simplesmente vida, toda a vida. A primeira, e por vezes decisiva, dificuldade para compreender a Bíblia e os profetas encontra-se na própria palavra: “Deus”. Quando encontramos esta palavra, encontramos, inevitavelmente, um conceito carregado com milénios de cultura, de cristianismo, de teologia, de filosofia e, depois, pela modernidade, os seus ateísmos, a ciência, a psicanálise e, assim, tornamos incompreensíveis o Deus dos profetas e a palavra destes, que tiveram necessidade da pobreza do Sinai, dos tijolos do Egipto, de liberdade essencial da tenda do arameu errante – eis porque os melhores ouvintes da Bíblia sempre foram, e ainda são, as crianças: é preciso a sua liberdade e pobreza para entrar neste Reino.

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O cântico da grande bênção

A aurora da meia-noite / 11 – A paisagem da terra encontrada não é a da terra prometida

por Luigino Bruni

publicato em Avvenire em 02/07/2017

170702 Geremia 11 rid«Quem ler a Bíblia não poderá evitar a impressão que, com a chegada de Jeremias, é como se um dique tivesse cedido num ponto decisivo. Sente-se algo de novo, uma dimensão de dor, até então desconhecida».»

Gerhard Von Rad, Teologia dell’antico testamento

«Foi-me dirigida a palavra de YHWH, nestes termos: “Não tomarás mulher, nem terás filhos nem filhas nesta terra”» (Jeremias 16, 1-2). Eis uma outra reviravolta narrativa e espiritual do cântico e da vida de Jeremias, esplêndida e tremenda. Jeremias, por vocação, não terá mulher, e não terá nem filhos nem filhas. A dupla ordem marca e reforça as duas solidões radicais de Jeremias: deverá viver sem mulher e viver sem filhos e sem filhas (a alegria, o esplendor e as dores que nos dão as meninas e as filhas não são substitutos daquelas dos meninos e dos filhos, e vice-versa). Nesta procissão – mulher, filhos, filhas – podemos ler, talvez, um olhar concreto, não genérico, sobre as alegrias diferentes e também concretas que ele não conhecerá, por especial vocação.

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A ferida viva que sabe falar

A aurora da meia-noite / 10 – Reconhecemos os profetas quando se revelam mendicantes de luz

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 25/06/2017

170625 Geremia 10 rid«O Rabi Mendel, um dia, diante do seu mestre, gloriou-se de ver, à noite, o anjo que embrulhava a luz ao chegar a escuridão, e, de manhã, o anjo que embrulhava a escuridão, ao chegar a luz. “Sim”, disse Rabi Elimelec, “também eu o vi, quando era jovem. Mais tarde, estas coisas já não se veem”.»

Martin Buber, Storie e leggende Chassidiche   [Histórias e lendas Chassídicas]

As experiências mais profundas e íntimas são preciosas porque geradas e vividas no segredo impronunciável do coração. Dão-nos uma nova profundidade, fazem-nos vislumbrar uma nova interioridade que não pensávamos possuir quando iniciávamos a travessia do deserto, antes da luta noturna, quando nos tínhamos levantado de manhã cedo para ir, com a lenha e com o filho, para aquele monte tremendo. E, em contrapartida, atravessámos o deserto, combatemos com um anjo, subimos ao monte Moriá e, por vezes, encontrámo-nos com um filho dado, com um nome novo, numa terra prometida ou vimo-la de longe, enquanto aí entravam os nossos filhos. Nas experiências decisivas, ouvimos sons e vozes inarticuladas, que nos escaldam e queimam como o sol, nos dessedentam e banham como a água, que nos tocam, nos acariciam, nos ferem. Mas não falam.

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Só a terra ferida gera

A aurora da meia-noite / 9 – A semente rompe a crosta, as pétalas dão cor às flores

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 18/06/2017

170618 Geremia 9 rid«Quase todas as ideias lançadas por Jeremias nesta época ligam-se à lei; quase todas as imagens usadas por ele são tiradas do mesmo património, já secular, da profecia bíblica. Tudo isto não é mais que um exercício, uma aprendizagem»

André Neher, Jeremias

«YHWH ordenou-me: “Vai comprar uma faixa de linho e cinge com ela a tua cintura, mas não a metas na água”. E eu comprei a faixa, de acordo com a palavra de YHWH, e com ela me cingi. Foi-me dirigida, pela segunda vez, a palavra de YHWH: “Toma a faixa que compraste (…) e encaminha-te para as margens do Eufrates, e esconde-a ali na fenda de uma rocha» (Jeremias 13, 1-4).

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É a mansidão diferente que salva

A aurora da meia-noite / 8 – As comunidades que matam os seus profetas ainda ingénuos, morrem

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 11/06/2017

170611 Geremia 8 rid«Deus não se revela ao profeta, como um abstrato absoluto, mas como relação íntima e pessoal»

Abraham Heschel, "Il messaggio dei profeti"

As saudades boas, as capazes de ainda nos falar, são apenas as saudades do futuro, as que sabem lançar o olhar para o presente e para o futuro. Não se regenera uma relação de amor voltando às palavras que ela nos dizia nos tempos felizes, mas sonhando e dizendo palavras de amor que nunca tínhamos dito. Há uma reciprocidade vital e essencial entre o passado e o presente. A promessa da origem dá sentido e verdade às esperanças nos tempos dos exílios e dos desertos; e o cumprimento das promessas de ontem, no hoje, diz-nos que não seguimos uma ilusão.

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Não à banalidade do nada

A aurora da meia-noite / 7 – Os ídolos não atemorizem nem sejam alibis de presunções

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 04/06/2017

170604 Geremia 7«Como podia, então, unir-me a este selvagem idólatra, na adoração do seu pedaço de madeira? Mas o que é adorar? Acreditas verdadeiramente, Ismael, que o magnânimo Deus do céu e da terra – incluídos os pagãos e todos os outros – possa alguma vez ter ciúmes de insignificante pedaço negro de madeira? Impossível! Então, o que é adorar?»

Herman Melville, "Moby Dick"

A profecia é uma crítica radical das religiões e dos cultos. De todas as religiões e de todos os cultos, que têm uma tendência intrínseca em transformar-se em práticas idolátricas. Também e sobretudo pela revelação bíblica, uma crítica sistemática e tremenda, para evitar que a palavra bíblica se torne uma simples religião – uma fé que se torna só religião já é culto idolátrico. A Bíblia é muito mais que um livro sagrado de uma religião, também porque recolheu e conservou no seu seio os livros dos profetas que, juntamente a Job e Qohélet, as impediram de se tornar um objeto idolátrico. Então, os profetas, esvaziando o mundo religioso dos ídolos, procuram libertar-nos a paisagem dos nossos artefactos religiosos para nos criar um ambiente em que, talvez, possamos ouvir apenas uma voz nua. São os grandes libertadores dos deuses que enchem a terra e as nossas almas.

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A tentação de vestir Deus

A aurora da meia-noite / 6 – As mentiras dos escribas são gaiola também para a boa-fé

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 28/05/2017

170528 geremia 6 rid«Jeremias compreende que o precioso poder do diálogo que lhe foi dado é, na realidade, poder de oração»

André Neher, Geremia

No princípio de toda a história de amor há um maravilhoso encontro entre “interior” e “exterior”. Nas histórias pessoais e nas coletivas. Encontramos, um dia, uma pessoa e sentimos que já estava presente na nossa alma sem que o soubéssemos. Enquanto a conhecemos, reconhecemo-la. Se assim não fosse, não nos ligaríamos a ninguém com um pacto que contém um “para sempre”. Algo de semelhante acontece também nas histórias de amor onde o outro que encontramos não é um homem nem uma mulher, mas uma realidade espiritual ou ideal. A voz que nos chama é, simultaneamente, exterior e intimíssima; reconhecemo-la porque já estava dentro de nós.

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A tenacidade honesta do fole

A aurora da meia-noite / 5 – Permanecer fortes para não manipular a realidade e não usar Deus

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 21/05/2017

170521 Geremia 05 rid“«E a multidão exultava, estalando os dedos. Zaratustra, pelo contrário, entristeceu-se e disse ao seu coração: “Não me compreendem: eu sou a boca para estas orelhas. Agora, olham-me e riem; e, enquanto riem, continuam a odiar-me. Há gelo no seu riso»”.

Friedrich Nietzsche, "Assim falou Zaratustra"

O Deus bíblico não fala na primeira pessoa, na terra; as suas palavras chegam até nós apenas como palavras de homens e mulheres. Quem desce do Sinai, com as Tábuas da Lei, é Moisés, um homem. A ele, YHWH fala na tenda da reunião, só com ele dialoga “face a face”, e diz-lhes palavras que, depois, o povo pode conhecer. Se queremos escutar a palavra de Deus no mundo, devemos, apenas e simplesmente, aprender a escutar homens e mulheres como nós. É uma palavra que se comunica enquanto olhamos olhos à mesma altura dos nossos. Não a encontramos nem acima nem abaixo: só frente a nós. O homem é o lugar onde Deus sabe falar aos homens. Somente homens e mulheres podem fazer ressurgir, em cada dia, a Bíblia e os Evangelhos, dizendo as palavras “sai para fora”. Sem pessoas que as chamam pelo nome, aqui e agora, também as palavras bíblicas permanecem mortas nos seus sepulcros.

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Como mães da palavra

A aurora da meia-noite / 4 – A verdade também faz sofrer, mas gera para a verdadeira liberdade

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 14/05/2017

170514 Geremia 04 bis rid

«Espero, de todo o coração, que me absolveis; não me diverte a ideia de fazer de herói na prisão, mas não posso deixar de declarar-vos explicitamente que continuarei a ensinar os meus jovens o que ensinei até agora … Se não pudermos salvar a humanidade, salvaremos, pelo menos, a alma».           

Don Lorenzo Milani, Carta aos capelães militares, carta aos juízes

A ideologia é o primeiro instrumento usado pelas classes dominantes nos tempos das crises. Antes da força, do dinheiro, do poder político, os chefes (civis ou religiosos) gerem as crises dos seus impérios produzindo ideologias, pagando a ideólogos, erguendo um sistema de propaganda capilar da ideologia. Quanto mais grave é a crise, mais essencial é o instrumento ideológico. A principal forma que toma a ideologia no tempo das crises é a produção sistemática e reiterada de ilusões coletivas. Enquanto os sinais falam, clara e somente, de declínio e de fim, as ideologias produzem, primeiramente, sinais diferentes, inexistentes; depois, fazem-nos tornar principais; por fim, apresentam-nos como os únicos. As ideologias são muitas e diferentes, mas têm em comum a criação artificial de uma realidade paralela que é apresentada como perfeita e que, progressivamente, faz perder o contacto com a realidade imperfeita e verdadeira.

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